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literatura ou quase

Não venha agora, Denise

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            Terapia de família era algo exótico algumas décadas atrás. Mesmo com Krishnamurti, Marcuse, William Reich e o casal Master e Johnson incensando a alegria da liberdade sexual dos hippies deitados nos parques, lavar roupa suja em família sempre foi difícil. E falar junto com o psicólogo dando seus pitacos e seus sorrisinhos freudianos fica ainda mais constrangedor. Ou mesmo quando a morte vai jogando ainda em vida todos numa mesma vala, falar da perda em grupo com finalidades terapêuticas é uma espécie de velório dentro de um consultório com hora marcada.

            Dra. Rita era totalmente favorável a catarses grupais, com um profissional capacitado segurando as pontas, evitando transbordamentos desnecessários. Mas uma vez ela confessou para uma aluna sua na faculdade: esses encontros em família que sempre existiram – festinhas de aniversário, batizados, enterros e quinze anos – às vezes são terapias também. Só que é muita coisa represada e muito exercício de hipocrisia. Concordo, professora. Por sinal cheguei à conclusão que o normal é a hipocrisia, saindo dela tudo fica patológico. Sinceridade é uma doença.

            Aquela tinha sido uma aluna brilhante, como se chamava mesmo? Era alta, morena, olhos verdes. Perderam o contato no final do curso, sumiu completamente. Teria desistido da psicologia? Bem, isso não era um dado importante quando Dra. Rita entrou no consultório acadêmico na tarde daquela quarta-feira, acompanhada de duas formandas que iriam monitorar a primeira das várias sessões com a família TG-38.

            Era um paciente do interior, o Hospital das Clínicas providenciou a vinda da família numa van e quinzenalmente, durante alguns meses, eles iriam contar seus problemas onde o paciente com certeza seria o assunto principal. Estamos evoluindo, pensou Dra. Rita. É realmente uma maravilha tornar disponível a uma família carente do interior os benefícios do acompanhamento psicológico.

            Mas já no corredor, ao ver perfilados doze rostos tristes e macerados pelo sol e pela pobreza, ela mesma assustou-se com o próprio incômodo da visão. Estava acostumada com terapia de família em petit comité, três ou quatro indivíduos, no máximo. Doze pacientes de uma vez só já é um show, é quase uma multidão, Deus do céu.

            Dentro da sala, reunidos em U, acomodaram-se todos sob o refrigério de um ar-condicionado bzzzzzz e os sorrisos seráficos da professora e alunas. As fichas da família TG-38 já tinham sido analisadas, comentadas, comparadas etc.

            Dra. Rita colocou uma mecha loira atrás da pequena orelha e disse baixinho: bom dia a todos… Ninguém respondeu.

            – Foi a própria Denise que nos pediu para fazer essas reuniões, para melhorar o entrosamento entre os membros da família…

            – Ai, nem me fale nesse nome, disse dona Emerenciana. Colocava uma mão aberta no rosto e movia a cabeça negativamente.

            – Vó, deixe a médica falar…

            Dra. Rita quis corrigir que não era médica, mas era melhor continuar sendo simpática.

            – Eu não quis vim. Vim apulso mermo, disse uma jovem gorducha, lenço na cabeça e cara fechada. Vai adiantá em quê? E cadê ele? Ele vem aqui também?

            As três psicólogas se entreolharam e a professora sentiu uma angústia crescente.

            – Minha gente, temos que nos adaptar à nova realidade…

            A maioria do grupo fez um ar de irônico muxoxo. Minha gente? E aquela dona era que nem eles? O que ela sabia de roça e de galinha ciscando no terreiro?

            Uma das formandas pensou num mesmo minuto se aquele grupo iria comer na cantina da universidade, em qual loja Tacy ia deixar sua lista de casamento e que antes de voltar pra casa precisava comprar um vidro de Atroveran. A outra formanda achou que todos naquela família eram parecidos – atarracados, rostos redondos, olhos puxados – e que as cadeiras da sala eram desconfortáveis. Dra.Rita nada pensou de concreto, apenas quis fugir.

            – Escutem: Denise não está aqui neste nosso primeiro encontro… Mas ela continua sendo da família, é uma nova pessoa mas os laços afetivos e de sangue permanecem. Ela própria quer continuar a conviver com vocês…

            – Mais essa, agora!, disse um rapaz barbudo, ombros largos. Escute aí, doutora: a gente veio mais pra resolver outras questão. Meu pai virou muié, se juntou com o marido da minha irmã e agora a gente nem na cidade consegue ir, o povo fala: olha os fio de Denis que virou Denise. E tem mais de ano que não vejo pai, só quem viu foi Jovino, porque pra ele pai é santo.

            – Agora é santa, disse a mulher de lenço. E todos sem querer deram uma risada.

            – Que vergonha, que vergonha, balançava a cabeça Emerenciana.

            Dra. Rita pôs uma mecha atrás da outra orelha e pensou que seria muito difícil para Denise voltar para sítio e para seus seis filhos e onze netos, sem falar na mulher Emerenciana que ficou bipolar ao saber que o marido resolveu mudar de sexo, ano passado. A filha odeia o pai, porque o marido escolheu ir viver com o sogro que virou sogra. Então era um processo de ninguém perdoa ninguém porque Denis já não existe mais e Denise já nasceu destruidora de lares.

            Eu, se fosse ela, ia ser feliz com meu homem e pronto. Que ideia de retornar pra família e viver todo mundo junto.

            Não venha, Denise. Este ar-condicionado é muito barulhento. Estou com dor de cabeça.

 

 

 

autor: Raimundo de Moraes

 

Texto lido no EnConto do dia 19/05/2011 – Bar Banquete, Recife

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Written by passeipostei

19/05/2011 às 16:27

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