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literatura ou quase

Engasguei e não decifrei

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Recentemente li mais um texto de apresentação de um livro novo. Deve ter sido um tanto constrangedor para a autora, que teve rapidamente seu livrinho transformado em pedestal para o crítico. Porque ele, depois de tantos malabarismos e citações empoadas, comparou a quase desconhecida poeta a Charles Baudelaire. Se ela tiver um pouco de autocrítica, nunca mais pedirá para ser decifrada.

É muito curiosa a crítica literária que se faz na imprensa escrita, atualmente. Algumas vezes, ao contrário do que se poderia supor, os críticos truncam suas análises, fazendo do texto uma bula para iniciados – e não uma matéria dirigida ao leitor comum, que folheia seu jornal ou revista à procura de informações mais acessíveis.

A necessidade de divulgar uma interpretação literária menos hermética e mais clara e simples é tão antiga quanto a chegada da crítica literária à imprensa, século 19, na Europa. Isto foi em torno de 1850-1860, com os primeiros artigos assinados por Sainte-Beuve. Depois, já no final do século, Anatole France – junto com Jules Lemaître e Remy de Gourmont – se rebelou contra as detalhadas análises científicas de Sainte-Beuve, apregoando uma crítica mais sensível, onde a análise da obra fosse gerada pela emoção.

No Brasil, ainda existem alguns críticos que não conseguem se desvencilhar de jargões acadêmicos, quando escrevem para jornais e revistas. Poucos conseguem uma leveza de estilo como a de Affonso Romano de Sant’Anna ou Benedito Nunes.

E os prefácios? Existe um tipo peculiar de prefácio, já citado no início deste artigo, que faz com que o autor do livro acabe sufocado pela avalanche de nomes, de inúmeras citações, comparações esdrúxulas. É como se o crítico ou intelectual quisesse provar ao público que é culto (ou gostaria de sê-lo) e que sabe escrever complicado. Para o autor, o que resta é aceitar a faca de dois gumes dos elogios fáceis.

Mas o perigo desse tipo de crítica não termina aí. Ela sai do particular para o geral, quando as elites ou grupos incentivam determinados modismos e as pretensas “descobertas literárias” tornam-se verdades absolutas. Em vez de difusora e realmente descobridora de talentos, a elite de críticos é capaz de cometer grandes erros, marcando e ludibriando toda uma geração de leitores. Até que um dia vença o bom-senso.

Um desses equívocos aconteceu com Virginia Woolf, que foi uma crítica atuante durante a existência da sua editora

Proust foi vítima da crítica de André Gide

Hogarth Press, em Londres. Ela adorava implicar com James Joyce, chegou até mesmo a classificar o seu livro Ulisses de “memorável catástrofe”. Como homem, Virginia considerava Joyce repugnante e egocêntrico. E o que dizer de Marcel Proust? Coitado, foi o próprio André Gide a vetar a publicação de Em busca do tempo perdido. Gide já era escritor e crítico conhecido quando Proust o procurou para publicar sua obra monumental através da Nouvelle Revue Française, onde Gide era diretor. Se Proust tivesse sucumbido à crítica de Gide, talvez os originais de À La recherche du temps perdu teriam ido para o fogo da lareira, lá no seu quarto forrado de cortiça.

Aqui no Brasil também tivemos alguns equívocos cometidos pela crítica. Uma das vítimas foi Lima Barreto. Consideravam-no um escritor esquisito. Esse preconceito contra Lima durou muito tempo, sendo ele praticamente (re)descoberto pela crítica meio século depois da sua morte.

Na década de 1930, uma polêmica dividiu Tristão de Ataíde e Agripino Grieco, no Rio de Janeiro. Tristão acolheu com entusiasmo o surgimento de José Américo de Almeida, autor de A bagaceira. Grieco saudou o escritor paraibano com um artigo chamado Grande romancista ou simples bagaceira? Literalmente um escracho. Pois errou. A bagaceira marcou o início da fase regionalista do romance brasileiro, abrindo caminho para nomes como Graciliano Ramos, José Lins do Rego e Rachel de Queiroz.

Outro equívoco foi cometido por Álvaro Lins, quando Clarice Lispector publicou em 1944 seu primeiro romance, Perto do coração selvagem. Além de se recusar a opinar sobre o original que lhe fora entregue – mandando Clarice procurar Otto Maria Carpeaux – depois que o livro foi publicado Álvaro achou o romance “inacabado”, mostrando-se sarcástico à linguagem intimista de Clarice, rotulando o livro de “literatura feminina” e “narcisista”.

…e Clarice foi vítima de Álvaro Lins

Como informação é poder, torna-se muito delicado o exercício da crítica literária. Principalmente porque, na maioria dos países, a elite intelectual está cada vez mais dividida em compartimentos. Quem sabe se num futuro próximo o crítico literário se tornará um ágil lobista – como já acontece, aliás, nos corredores e seletos grupos que dão acesso aos grandes prêmios de cultura, como o Goncourt, o Cervantes, o Nobel. Quem sabe os críticos irão trabalhar para os segmentos que lhes parecerem mais simpáticos às suas ideologias e conhecimentos. E o que diria Aldous Huxley desse “admirável” mundo novo?
 

 

Raimundo de Moraes

 

 
 

 
Artigo publicado em novembro de 1995, no Jornal do Commercio, Recife.  Foi publicado com o seguinte título (inventado pelo editor): Para a crítica decifrar é às vezes devorar. Aqui, publicado com o seu título original.

 

 

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