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literatura ou quase

Um cheiro de sândalo e jasmim: o homoerotismo na poesia de Abu Nuwas e Ibrahim Ibn Sahl

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Traduções de Paulo Azevedo Chaves

 

Com vinho, dizendo que é vinho, enche-me a taça,
Pois beber furtivamente não há quem me faça.
Pobre e maldito é o tempo em que sóbrio fico,
Mas quando trôpego pelo vinho torno-me rico.
Não escondas por temor o nome do bem-amado;
O prazer verdadeiro nunca deve ser ocultado.

Ho! a cup and fill it up, and tell me it is wine,
For never will I drink in shade if I can drink in shine.
Curst and poor is every hour that sober I must go,
But rich am I whene’er I stagger to and fro.
Speak, for shame, the loved one’s name, let vain disguises fall;
Good for naught are pleasures hid behind a curtain-wall.

 

Abu Nuwas (c.750-810) nasceu em Ahwaz, Pérsia, filho de soldado sírio e uma mulher persa. Educou-se em Basra e Cufa, então centros culturais muito importantes do Oriente Muçulmano e viveu depois longamente na corte do califa Harun al-Rashid (785-809), que se tornou seu amigo. Em Bagdad, Abu Nuwas veio a ser considerado um dos maiores – senão o maior – do seu tempo e um dos grandes da poesia árabe clássica, a que trouxe, dentro do seu formalismo característico, uma desenvoltura extraordinária, um tom de anacreôntica graciosidade e leveza que não recua ante o mais licencioso e é o espelho de uma cultura que herdou, ao contrário da Europa cristã, o hedonismo e a desinibição do mundo greco-latino. Abu Nuwas aparece frequentemente na coletânea As Mil e Uma Noites, quase sempre em situações relacionadas ao amor entre iguais. 

O poema acima consta do livro Anthology of Islamic Literature (Penguin Books, editada por James Kritzeck, 1964) e sua versão em inglês é assinada por R.A. Nicholson.   Na versão em português consta no livro Trinta Poemas e Dez Desenhos de Amor Viril, Pool Editorial, 1984.

 

Muitas vezes um belo rapaz de lábios rubros
me pergunta sorrindo: – qual a tua religião?
Eu lhe respondo: em teu amor eu encontro minha fé,
meu paraíso, meu Deus e minha eternidade.

 

Abu Ishaq Ibrahim Ibn Sahl al-Isra’ili al-Ishbili (1212-1251), também conhecido como Ibn Sahl de Sevilha, é considerado um dos grandes poetas mouros da Andaluzia no século 13. Ele era um judeu convertido ao Islã, na época em que aquela região da atual Espanha estava sob domínio muçulmano. Morreu tragicamente num naufrágio a serviço do governador de Ceuta Abu Ali Ibn Khallas. Sobre a morte do poeta, Ibn Khallas fez o seguinte comentário (belíssima metáfora, por sinal): a pérola retornou ao mar. Poema traduzido da versão inglesa de autoria de Winston Leyland. Na versão em português consta no livro Nus, com seleção, tradução e notas de Paulo Azevedo Chaves e fotografias de Roberto Portella. Editora Comunicarte, 1991.

 

 

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Written by passeipostei

08/06/2011 às 23:53

Publicado em Poemas

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