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literatura ou quase

Um conto de Cícero Belmar

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BOMBA-RELÓGIO

 

 

 

Segredo, a palavra já está dizendo. Ninguém imagina o meu passatempo favorito. Qual deve ser o hobby de uma pessoa com uma doença crônica, progressiva, que mata? Eu sou uma estranha num corpo que já foi meu. Tem horas que eu fico pensando: troquei de corpo, eu não era assim, eu não sei mais quem sou.

No meu trabalho ninguém sabe quem sou. As pessoas me veem como um tipo bonachona, que não liga para nada. Outras só enxergam em mim o corpo feio e pensam que eu como qualquer porcaria. Ser obesa é um problema que vai além da aparência, eu vou morrer de tão gorda.

Meu passatempo é anotar num caderno, cuidadosamente, com a letra muito desenhadinha, o nome das pessoas que morrem. Eu capricho. Tenho o prazer de fazer essas anotações. Todos os dias de manhã eu ligo o rádio no Bandeira Dois e fico ouvindo e anotando. Ao lado do nome eu coloco a causa da morte e a data. Tem coisa mais divertida?

Tenho vários cadernos cheios, faço essa coleção há anos. O programa do rádio às vezes tem violência demais, é gente se matando, quatro, cinco, por dia. Eu digo Ave-Maria e anoto tudo que dá para anotar. É povo simples, em sua maioria, desconhecido. Hoje, um morreu dentro de um carro, deram dois tiros nele. Outra, chamava-se Mira e era prostituta. Mais outra foi-se encontrar com Deus porque comeu bolo envenenado.

Adoro bolos, tortas, adoro comer. Mas eu sempre me esforcei para emagrecer. Fiz dietas, atividades físicas, terapia. Tomei remédios para emagrecer, mas parei. Descobri que eles eram perigosos e foram condenados pela Saúde Pública. Eram remédios controlados, com orientação médica, tudo direitinho. Um dia o meu médico chegou e disse: suspende, Jeane, que ele foi condenado.

 Obeso é assim, convive com a ideia de morte, com a possibilidade de o coração explodir a qualquer instante. Eu quero emagrecer porque sei que se continuar gorda não viverei muito. Mas não tem jeito. Ou você morre cedo ou, se viver um pouco mais, não pode ter uma vida boa, conviverá com muitos problemas de saúde. Isso é uma coisa que me angustia muito. Mas essa consciência de que estou doente, que eu tenho uma falha no meu organismo, só me faz sofrer mais ainda.

Fico pensando em que página dos meus cadernos o meu nome irá parar, – Jeane Maria Dantas Silveira – ou quem irá anotá-lo. Ou se realmente alguém escreverá o meu nome, que em tese deverá ser o último.

Sou organizada, tenho dois tipos de cadernos para anotações dos mortos. Um, para as pessoas desconhecidas. Outro, para as famosas. Tem uma diferença. Os desconhecidos eu anoto somente quando de fato morrem. Quando o nome sai no rádio ou alguém me conta. Mas as atrizes, essas mulheres de corpo belíssimo, as artistas da televisão com cara de maravilhosas e, principalmente as manequins, eu escrevo os nomes delas quando ainda estão vivas.

Anoto mesmo. Ficou famosa? É linda? Corpo magro? Vou logo anotando. E deixo o espaço em branco, ao lado, para acrescentar somente a data da morte e a causa. Se fosse esperar para anotar os nomes delas somente quando morrerem, demorará muito para encher um caderno. Escrevo o nome e só tenho o trabalho de desenhar a cruz ao lado, no dia certo.

Eu sei que nunca vou ser manequim, nunca vou ser Gisele Bündchen, nem quero isso. Mas eu perdi a minha identidade e sempre insisti muito em regime, faço a minha parte, mas chega um dia em que esmoreço porque eu não consigo emagrecer. Numa determinada hora você se desencanta, se desespera.

Controlar o peso vai deixando uma angústia muito grande. Eu sou uma pessoa muito ansiosa. O meu medo de engordar enquanto faço dieta é tanto, a minha vontade de emagrecer é tanta,  que eu acabo comendo. Tem efeito contrário, a ansiedade me faz comer mais. Só aumenta a angústia.

Certa vez, consegui. Passei dois anos para perder 20 quilos e em seis meses, recuperei. Isso me deu uma sensação de revolta, pois eu me esforcei, sofri, quem quiser que pense que fazer regime é fácil. Você está abrindo mão de um prazer. E a pessoa que é gorda não tem muitos prazeres na vida, a comida acaba sendo uma compensação. É um prazer misturado com culpa.

Gordo não tem muita coisa legal na vida, resta comer. E você não pode comer porque vai engordar. Quando você se dá ao direito de saborear alguma coisa, já não sente nem o sabor, não tem mais o prazer da comida. É prazer misturado com culpa. Às vezes eu queria provar um pedaço de bolo, de que gosto tanto, uma torta, mas não posso fazer. No dia em que não aguento e como, fico me sentindo uma bosta.

Todos os dias eu me sinto um cocô. A vontade que dá é escrever mais nomes de mortos nos meus cadernos. É um hobby macabro, muita gente diria isso. Daí por que eu mantenho o meu segredo porque eu fico com vergonha de dizer que o meu hobby é esquisito. Comecei quando era adolescente ainda. Já era gordinha, mas fui ficando cada vez mais e minhas amigas se afastaram de mim.

Cheguei a pesar quase 130 quilos na minha adolescência. Quando se é gordo existe uma rejeição por você. As pessoas não o chamam para ir às festas, bares, shoppings. Se você vai ao teatro, cinema, nem sempre há lugar para sentar. Algumas pessoas têm vergonha de sair com você, outras o criticam por trás, dizem bem assim:

– Eu não aguento olhar para ela. Está gorda demais, horrível!

Adolescência. Restava-me fazer o quê? Foi então que comprei cadernos para fazer relatos de minha angústia, tipo um diário. E quando dei por mim já estava anotando os nomes dos defuntos.

Eu ficava em casa, vendo televisão. Meu divertimento era ver os programas, com aquelas atrizes maravilhosas, corpos de uma elegância ímpar. Umas mulheres bem sensuais. E gordo também quer ser elegante, também quer ser sensual. Também precisa de outra pessoa para ficar junto, que o queira. Mas você é grande demais, está fora dos padrões. E o seu desejo tem que ser engolido a seco.

O que um gordo mais deseja é ser discreto, faz de tudo para não ser notado e ficar em paz. Mas é muito grande, não passa despercebido. Certa vez eu estava entrando numa loja de disco da Avenida Guararapes, quando um garoto que nunca vi, passou na rua e gritou:

– Lá vai uma baleia!

Quando voltei para casa, estava com ódio. Saí procurando nomes em jornais antigos para escrever no meu caderno. Perguntei a minha mãe se ela sabia de histórias antigas, de defuntos. Ela estranhou, pensou que eu estava enlouquecendo. Anotei uns dez a doze nomes, revoltada, queria escrever mais, acabar com a humanidade. As lágrimas escorrendo e eu anotando. Enchi um caderno com nomes de artistas. Trincando os dentes, com letra caprichada. Para as atrizes, eu dizia com o veneno escorrendo:

– Deus te coloque em bom lugar!

Depois daquele dia, eu não quero ir mais a lugar nenhum, só trabalhar e ver televisão. Ficar invisível. Só que eu sempre fui vaidosa, eu sempre tive as minhas vaidadezinhas, eu era uma pessoa vaidosa que queria ficar invisível.

Eu era vaidosa não, eu sou vaidosa e não posso usar roupas da moda, que essas manequins exibem com uma naturalidade irritante. Tenho revolta de vê-las caminhando como princesas, uma leveza que lembra uma pluma. Isso é uma agravante. Eu gosto de me arrumar, de me perfumar. Gosto de estar bonita, com roupa fina, sapato, bolsa. E não há nada disso para mim. Eu chego às lojas, acho as roupas maravilhosas e nenhuma cabe em mim. Roupa para gordo é caríssimo e difícil de achar. O meu pé é enorme, é gordo, tenho que comprar números grandes. E os pés incham, o sapato fica torto. Quando eu encontro uma roupa que dá em mim é para velho. Eu fico uma pessoa jovem com cara de senhora, ou de idosa, fico gorda e velha. Certa vez eu fui comprar uma roupa nova no Shopping Recife e nada cabia, andei, andei, terminei entrando numa loja que vende roupa hippie. Fiquei horrível com aquelas saia e blusa folgadas. A minha vontade é de queimar essa roupa.

Um dia, quando eu merecer, morrerei.

Meu Deus, que vida é esta? Eu vou morrer em poucos anos, ou talvez em meses. Já estou com apneia do sono, durmo e acordo sufocada, no meio da noite, o corpo todo torcido. A minha pressão é oscilante.

Minha vida é assim: durmo e acordo, e quando acordo vejo que ainda tenho 24 horas para vencer, mais um dia pela frente. Eu trago comigo essa sensação de bomba-relógio. Quem vive nessa iminência, só quem vive com essa ameaça, sabe que a coisa mais natural do mundo seria passar o tempo a colecionar almas.

 

Do livro Tudo na primeira pessoa.

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Written by passeipostei

08/06/2011 às 22:23

Publicado em Contos

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Uma resposta

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  1. Adoro esse livro de Belmar. Contos incríveis. 😀

    Cleyton Cabral

    12/08/2011 at 11:49


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