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literatura ou quase

Um conto de Dalton Trevisan

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UMA NEGRINHA ACENANDO

 

 

 

Seis e meia da tarde, na estrada. Calça azul berrante e blusa vermelha.
– Dá uma carona, moço?
Gostou de ser chamado moço. Ela sorriu: nenhum incisivo superior.
– Suba.
Sandália velha de couro. Sem bolsa.
– De volta do emprego?
– Estou paquerando.
– Não diga. Faz isso todo dia?
– Quando não chove.
– Desde muito na vida?
– Faz um ano. Uma ruiva me trouxe. Ela também paquera.
– Quem foi o primeiro?
– Meu noivo. Queria saber se era moça.
– Ficou grávida?
– Tive um menino. Quase um aninho. Chuva ou sem chuva, são dois pacotes de leite por dia.
– Teus pais sabem?
– Pensam que trabalho de diarista.
– Como é a paquera?
– A gente faz sinal. Até que alguém para. Às vezes fica freguês.
– Aonde vão? Alguma casa?
– Que casa. No caminhão. No mato.
– Você faz tudo?
– O normal.
– Sente algum prazer?
– Difícil. Eles sempre com pressa.
– Quanto você cobra?
– Meia nota.
– Hoje foi bom?
– Não ganhei nada. Tem dia bom. Depende de sorte.
– Qual o pior dia?
– Quando chove. Ou muito frio. Cato graveto e acendo foguinho debaixo da ponte.
– E a hora pior?
– Do almoço. Daí eles não param.
– Você almoça?
– Eu, hein!
– Como você vem?
– Cedinho saímos de casa, eu e a ruiva. Andamos um bom pedaço. Medo de meus pais. Daí ficamos pedindo carona. De repente um para.
– E a volta?
– Mais custosa. Ainda se ameaça chuva.
– Já anoiteceu na estrada?
– Um par de vezes.
– Quando amanhece chovendo?
– A gente não vem.
– Qual foi o melhor dia?
– O dia que peguei sete.
– Já tenho visto na estrada essa calça azul.
– De onde o senhor é?
– Estou de passagem. Há muitas como você?
– Uma em cada curva. Muita menina. De treze e catorze anos. Dão até por amor.
– Onde?
– No matinho. Atrás da moita.
– Não engravidam?
– Lá são bobas feito eu.
– Esses dentes. O que aconteceu? Tão novinha.
– Doía o do meio. Bem aqui na frente.
– Quem te atendeu?
– O dentista do governo.
– Por que tirou os outros?
– Eu disse: “Dói tudo.” E ele: Já viu debulhar milho? Daí arrancou os quatro.
– Chegamos. Aqui você desce.
– Até qualquer dia, moço.
 O sorriso puro dessa grande festa de viver.

 

Do livro Meu querido assassino, 1983.

 

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Written by passeipostei

10/07/2011 às 21:11

Publicado em Contos

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