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literatura ou quase

Murilo Rubião e a gravatinha de Guimarães Rosa

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Você tem convivido com grandes escritores brasileiros, como João Guimarães Rosa e João Cabral de Melo Neto. Você tem algumas lembranças a repartir conosco?
Quando eu trabalhava em Madrid nos anos cinqüenta, o João Cabral fazia pesquisa em Sevilha para o governo brasileiro no Arquivo das Índias. Num dos Jornais que recebíamos do Brasil contava que o Guimarães Rosa tinha sido candidato à Academia Brasileira de Letras e não tinha conseguido eleger-se. O João Cabral, mostrando-me o jornal, gozava o nosso grande escritor, dizendo que era uma bobagem dele, que a Academia era para o canastrão, o sujeito que não tinha mais nada para contar, o que não era o caso do nosso Guimarães Rosa. João Cabral falava como se entrar na Academia fosse o fim para o escritor. Para se desculpar um pouco, mas com muita ironia, disse que no fundo o Guimarães Rosa era um ingênuo, sem malícia, que entrar para a Academia era uma vaidade tola. Dez anos depois o João Cabral se candidatou também à Academia Brasileira. Não estive com ele após a eleição, mas espero ainda a ocasião para saber se ele está com a obra terminada ou se a Academia serviu para ele de trampolim para ser Embaixador. No Itamaraty, dão muita importância a você ser membro da Academia, e não a ser um bom poeta. Aliás eles não entenderiam os versos do João Cabral. Ou então o nosso poeta achou que a obra poética dele está terminada. O último livro dele, o Museu de Tudo está muito aquém do primeiro livro e de Duas águas; de Morte e Vida Severina e tantos outros.
Eu não convivi com Guimarães Rosa, a não ser por correspondência e leitura, porque quando ele se transferiu para o Rio, eu já tinha voltado para Belo Horizonte, e depois fui para a Europa. Mas quando fui designado para Sevilha e Madrid, perguntaram se eu não queria levar um dossiê referente à Espanha, com dados econômicos, sociais, etc. Na parte da literatura eu estava mais ou menos a par. Então fui pegar esse dossiê e no elevador do Itamaraty no Rio de Janeiro estava um senhor de gravata borboleta, e quando ele ouviu meu nome apresentado pelo diplomata João Pinheiro Neto ele exclamou, “Murilo Rubião! Que coisa nos encontrarmos aqui. Gostei tanto do Ex-Mágico!” Todo o tempo segurando a minha mão. Ele tinha uma voz um pouco efeminada, e, segurando a minha mão por tanto tempo, eu fiquei ruborizado. Quando saímos do elevador, perguntei para João Pinheiro, “Quem é essa bicha de borboleta?” “É o Guimarães Rosa!” Eu sentei no chão, bati com a mão na cabeça, e disse “Essa não!”

 

Trecho de entrevista concedida à Elizabeth Lowe.  O mineiro Murilo Rubião (1916-1991) é autor dos livros O ex-mágico,  A estrela vermelha, O convidado, entre outros.

 

 

 

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Written by passeipostei

31/08/2011 às 16:15

Uma resposta

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  1. KKKKKK. Crônica maravilhosa!

    Cleyton Cabral

    08/09/2011 at 17:16


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