passeipostei

literatura ou quase

Poemas de Orley Mesquita

with one comment

 Poema biográfico

                                      

 

 

Minha vida sou eu de lado alado.
Se colho uma flor do meu jardim
Um gato reinventa-se no telhado.

Quando a lua me deixa embriagado,
Cerro os olhos de nojo e sofrimento.
Visto meu terno branco, hoje cinzento,
E vou-me divertindo com o diabo.

A noite do que fui deixou-me cego;
Nem me restaram versos a rezar.
Cubro meu corpo de jóias impossíveis
E bebo geometrias do sonhar.

Faço contas. Passo tudo a limpo.
Varro o chão de vidro do pesar.
Embriaga-me o fruto adormecido
E sou meu próprio sangue: sou o mar.

Prego bandeiras de papel carbono
Datilografo o nome a rasurar.
Corrijo o verbo, penso esquecimentos,
E referto de mim vou-me deitar.

 

 

 

 

 

Imagem 

Poema Fácil

 

 

 

Amei Fernando
E amei Julinho.
Amei a pedra
E a flor insana.
Amei o mundo
E os seus mistérios,
Que muitos são
E nos enganam.

Às coisas feias
Fiz uma prece.
Amei na sombra
A minha morte.
Não tive nada
Porque chorasse
Dos meus amores
A frágil sorte.

Amei Terêncio
Na dor dos anos.
Augusto amei
Que já se foi;
Seus mansos olhos
Hoje tardios,
Tomaram a cor
Do que me dói.

Amei o sol
Que me foi digno.
Ao mar amei
E a mim também.
Se outros amores
Me entristeceram,
Outros vingaram
Que foram sem.

Amei os bichos
Ainda criança.
Meu corpo amei
Se adolesci.
Amando tanto
Em vasto mundo,
No amor dos anjos
Só me feri.

Não quero nada
Do que passado,
Guarde memória
De insensatez;
Quero morrer
De haver amado
O que ainda
Não conheci.

Amei Carlinhos
À flor da tarde
E o vi ardente
Sonhar em mim.
Amei o vinho
E a mesa farta,
Mas São Francisco
Amou-me a mim.

 

 Imagem

 

A derrubada           

 

 

 

A curva das tuas nádegas,

A força dos teus músculos,

Tudo foi meu.

Passaram-se os dias.

Caíste e recaíste

Em constante inconstância…

Agora, na derrubada,

Restaram, apenas, o retrato,

A conta do bar

E os chinelos empoeirados sob a cama.

 

 

 

Divagação I

Dádiva dos deuses
O que escrevo.
Sílaba por sílaba
Emerge do silêncio
A geometria do verso.

O poema não se adivinha.

Divagação II

Alguma coisa de luz
Toma-se a alma,
Simples como um sopro
As palavras fulgem.

Austeridade do traço
No limbo do papel.

Poesia é liberdade.

 

 

 

Somos grandes…
 

 
 
Somos grandes,
Porque Tudo é grande.
Nele nada se perde:
Nem sequer o fero espinho do mal.

O nosso destino é sombra que vaga
À deriva do mundo, dos astros, de Deus.
Somos o que falta e o que sobra
Dos sentidos, dos seres e das coisas,
Como se destino houvesse!…

Somos o vazio pleno,
O enigma sem mistério,
Do derradeiro sonho,
Do último renascer.

 

Poemas escolhidos através da antologia Poesia e Prosa de Orley Mesquita, publicada pela Companhia Editora de Pernambuco. Organização, prefácio e notas de Anco Márcio Tenório Vieira.

 

 

Anúncios

Written by passeipostei

28/04/2013 às 11:51

Uma resposta

Subscribe to comments with RSS.

  1. Reblogged this on O LADO ESCURO DA LUA.

    anisioluiz2008

    28/04/2013 at 14:41


Passou, gostou? Comente.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: