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Virar mulher

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R. Mineiro

 

 

 

No carnaval de 1993, me maquiei cedo na frente do espelho. Batom vermelho, blush, rímel, um top básico, uma saia colorida. Nunca me vestira daquela maneira. De alguma forma aquela transgressão me completava.

As exclusividades femininas agora minhas. Um último ajuste nos brincos postiços e a certeza: estava lindo. Silencioso, caminhei para a porta da rua.

Aos treze anos, fui surpreendido por meu pai que me proibiu o travestismo. Passei o sábado de Zé Pereira trancado em casa, assistindo na TV a meus amigos brincando de ser mulher.

Alguns anos antes, acompanhei minha irmã em sua primeira aula de ballet. Fiquei encantado. Os passos, o ritmo, as cores do ambiente. Ainda hoje, posso recordar a música executada na classe. Na volta para casa disse a minha mãe o quanto gostara das bailarinas. No dia seguinte estava matriculado na escolinha de futebol.

Assim, desde novo, ia sendo separado do mundo feminino como se me cortassem, cotidianamente, um cordão umbilical. Por isto, seguia olhando para meu umbigo e enxergando através dele a tatuagem que carregava comigo. No meu ponto de equilíbrio, um rastro feminino.

E de tanto olhar para aquela cicatriz materna, descobri uma menina a crescer dentro de mim. Foi crescendo, crescendo e ameaçou explodir em hérnia. Minhas entranhas querendo sair, num inútil esforço de me virar ao avesso. Meu umbigo enorme, meus pais mandaram tirá-lo. Após a cirurgia, acordei com a dolorosa sensação de minha primeira castração feminina.

Esquisito este desejo de ser mulher. Esta palavra estranha que lembra verbos, correr, bater, beber. Substantivo grávido de sentidos e existência. A sentença: ser mulher, sempre me pareceu redundância.

Na busca desta condição, que também é uma ação, me encontrei em muitos adjetivos e superei outras preposições. Casei-me com uma bailarina e nos engravidamos de uma pequena atrevida. Todos sabem, ou deveriam saber, que é o gameta masculino quem determina o gênero das próximas gerações. O cromossomo XY é a marca genética de nossa máscula ambiguidade.

No nascimento de minha filha, finalmente cumpri a secreta profecia. Aquele pequeno mundo, determinado por meu código contraditório, teve a ventura de ser feminino. E agora, parte de mim vive neste mundo como fêmea. Penso nas alegrias, nas enciclopédias, nas fogueiras e pedras.

Apesar do penar, sinto-me completo, reconstituído com uma parte amputada. Orgulhoso, desfilo com a cria pelas ruas. As pessoas se espantam com um homem cuidando de um neném, ainda mais uma menina. As moças distribuem agradáveis olhares de curiosidade e admiração. Os senhores, em geral, de desconfiança.

Alguém me disse uma vez que a cena de um pai afagando seus filhos representa a esperança no mundo. É difícil ser o sentimento de um mundo sem sentimentos. Mas não procuram facilidades aqueles que arriscam virar mulher.

A paternidade feminina é a transgressão carnavalesca que não foi cumprida, é a sensação do palco para uma bailarina. Depois de trocar a fralda de minha filha, ela me olha com aquela cara séria de quem vai dizer algo de grande importância e balbucia:

– Mamãe!
 
 
 

hermafrodita

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Written by passeipostei

08/12/2013 às 13:18

Publicado em Crônicas

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