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literatura ou quase

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Quem está preparado?

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por José Castello

 

Vivemos, nesse início de século, em um universo literário dominado pelas teorias, pelas leituras dirigidas, pela especialização, pela luta de prestígio entre as várias escolas de interpretação. Universo ocupado pela figura do leitor especialista, do erudito, do doutor de escola, daquele que “sabe o que lê”, a literatura se apequena. Ela é transferida para a esfera do conhecimento – mas, na literatura, não é do conhecimento que se trata. Esfera do saber – mas, na literatura, é bem mais importante não saber. Nesse cenário hiperespecializado, muitos leitores não se julgam prontos, ou capacitados, para ler um grande autor como Pessoa, ou Kafka, ou Rosa, ou Clarice. Esses grandes escritores parecem estar acima, ou além, de suas possibilidades; como se eles, leitores, não estivessem autorizados para o ato da leitura. No entanto, quem pode ser dizer preparado para ler um livro? Quem está realmente pronto para ler O castelo, de Kafka, ou O livro do desassossego, de Pessoa, ou A paixão segundo G. H., de Clarice, ou o Ulisses, de Joyce? Se tais leitores existem, eles não interessam à literatura. Se é que existem, se é que podem existir, pois parece que não.

Houvesse uma sincronia perfeita entre o grande livro e o grande leitor, e só chegaríamos a leituras previsíveis, a releituras, e com isso afundaríamos na repetição. Ficaria de fora, assim, aquilo que a leitura de um grande livro guarda de mais fundamental: o susto. Tanto na leitura, como na escrita, existem muitos elementos fora de controle. O despreparo, a insuficiência, o vazio não são obstáculos, ao contrário, são condições fundamentais para a aventura da leitura. Não só para a leitura, mas para a escrita. São peças chaves na construção da literatura.

Os escritores conhecem isso muito bem. No ato da escrita, fatores incertos, invisíveis, não detectáveis, dominam a frente da cena.

Não existe também o escritor preparado para escrever – e justamente por isso que não existem escolas, ou universidades para a formação de escritores. Não há “ciência da literatura” e, por isso, já no século 19, Edgar Allan Poe, no conhecido soneto À ciência, escreveu: “Ciência! Do velho Tempo és filha predileta!/ Tudo alteras, com o olhar que tudo inquire e invade!/ Por que rasgas assim o coração do poeta,/ abutre, que asas tens de triste Realidade?” Nada contra a ciência, é claro; mas que ela não ocupe, não se aposse, de um lugar que não é o seu.

Adélia Prado em sua cozinha católica de Divinópolis. Nelson Rodrigues, em meio à zoeira da redação de O Globo, concentrado em sua dramaturgia. Clarice atônita, a máquina de escrever no colo, escrevendo enquanto vigia as crianças. Franz Kafka abatido em sua mesa de burocrata no ministério de Seguros Gerais, em Praga. Pessoa, metido em uma capa preta, um corvo no balcão de um café do Chiado. Hemingway em seu barco navegando, cheio de bravatas, pela costa de Havana. Ricardo Piglia em um intervalo de aula nos Estados Unidos, ou em um seminário em La Plata. João Gilberto Noll, em pleno inverno, solitário, caminhando por uma praia deserta do norte do Rio Grande. Virginia Woolf, apavorada, ouvindo vozes em seu quarto. João Cabral, de paletó e gravata, despachando em um consulado na África. Qual deles está na situação ideal para escrever?

Todos estão, e nenhum está, já que a literatura é, antes de tudo, o universo do particular. E é também o lugar das experiências incompletas, das situações deficitárias, dos grandes transtornos, das palavras que não dão conta do real mas que, ainda assim, ou por isso, se tornam preciosas. É uma tolice julgar que o ideal para um escritor seria trabalhar das oito ao meio-dia, ou ler as obras completas dos grandes autores, ou se preparar numa especialização antes de enfrentar a página em branco. Há algo de íntimo e intransferível que, por fim, é o que sustenta a literatura. Algo que escapa aos dois lados do jogo literário, escapa ao leitor e escapa ao escritor. “Se a obra de arte proviesse da intenção de fazê-la, podia ser produto da vontade”, escreveu Fernando Pessoa. “Como não provém, só pode ser, essencialmente, produto do instinto.”

Há toda uma parte fluida e disforme que, para além das estratégias narrativas ou poéticas, muito além da sofisticação técnica e da influência das tradições literárias, comanda o ato de escrever. Muitos, sem levar isso em conta, tomam a literatura como uma experiência elevada e especializada, um ofício para escolhidos, ou bem adestrados. Voltando a Pessoa. Depois de dizer que a arte média eleva, enquanto a arte superior liberta, ele faz a distinção: “Elevar e libertar não são a mesma coisa. (…) A libertação é uma elevação para dentro, como se crescêssemos em vez de nos alçarmos”. Está marcada aí a diferença que delimita o literário. A literatura não é só o que se escreve, é um mergulho interior.

 

Trecho do ensaio A literatura na poltrona, publicado em 2006 no jornal Rascunho.

 

 

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Mamãezinha querida

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Entre Medeia e a Virgem Maria. Desde que os homens saíram das cavernas e iniciaram o processo civilizatório, as fêmeas do Homo sapiens vivem um dilema histórico: serem boas esposas e mães perfeitas. Por não entenderem nada de biologia, parir naquela época era algo sobrenatural – o que favoreceu o surgimento e a manutenção do matriarcado durante séculos. Com o advento do cristianismo se consolida o culto mariano. Um hímen intacto torna-se um atestado de bom caráter e pureza d’alma.

A princesa Medeia, filha do rei Eetes, é ainda hoje um dos maiores mitos de crueldade materna. Sua história foi recontada através de uma peça de Eurípedes, encenada pela primeira vez em 431 a.C. Mas comentam que na versão original da lenda grega Medeia não matou os filhos: eles foram assassinados em Corinto por uma turba raivosa. Os cidadãos daquela cidade teriam “convencido” Eurípedes a escrever uma nova versão, para não manchar o nome da cidade com o crime de infanticídio. E assim permanece até os dias atuais a versão teatral que sabemos: uma mulher abandonada pelo marido e que se vinga nos filhos para punir o seu amado infiel.

No outro extremo está a imagem celestial de Maria de Nazaré, mãe de Jesus. Maria é um personagem que ganhou forma com o passar do tempo, como uma escultura ou paisagem de uma tela. A Igreja a proclamou eternamente virgem no Concílio de Éfeso, em 431 d.C.; foi proclamada sem pecado em 1854, e em 1950 decidiram que ela não morreu: subiu aos céus “em corpo e alma” tal como Jesus.

O culto mariano não é um dogma de libertação e igualdade de direitos entre homens e mulheres. Como o próprio cristianismo, é um ícone de submissão e culpa. Mulher ideal teria que ser virgem antes do casamento e ser uma boa genitora depois. Ser mãe ainda hoje é visto como uma bênção divina, a mulher parideira é admirada e muito mais bem aceita do que aquela que opta por não ter filhos. Mas procriar é apenas um dos destinos possíveis de uma mulher, mesmo que ela ache que só poderá ser feliz sendo mãe.

Porém tantos úteros abençoados não se afinam muitas vezes com cabeças desequilibradas. Essa coisa de mães que jogam recém-nascidos no lixo ou os abandonam à própria sina não é algo recente. Medeia não foi uma precursora. Na Antiga Grécia as mães estavam autorizadas pelo Estado a matar ou abandonar nas florestas crianças nascidas com algum “defeito” (cegueira, má-formação congênita etc). Na Idade Média, por volta do ano 1198, o papa Inocêncio III resolveu criar “A Roda” – utilizada depois nos conventos e orfanatos mundo a fora. De maneira anônima, as mulheres que não queriam ou não podiam manter seus filhos, podiam deixá-los num compartimento do lado de fora do orfanato. Faziam rodar o engenho, o bebê entrava e seus problemas saíam. O motivo da criação da Roda: o papa ficou assustado com o número de pequenos cadáveres boiando no rio Tibre, em Roma.

Saindo do item assassinato e indo para o de espancamento, um dos exemplos mais famosos é o da atriz Joan Crawford. Por ser uma das maiores estrelas de Hollywood, suas crueldades ganharam fama internacional. Batia nos filhos (todos adotados), amarrava os coitados nas camas, fazia tortura psicológica. A sua filha Christina – a mais traumatizada da prole – escreveu um livro (Mommie Dearest – Mamãezinha Querida) que depois virou filme (1981) estrelado por Faye Dunaway. Não ganhou nenhum Oscar, mas se houvesse prêmio para mães malvadas, na certa ganharia o Beliscão de Ouro.

A sociedade deveria abolir o modelo coercitivo de que uma mulher para ser “completa” precisa ter filhos. Simplesmente porque nem todas têm capacidade para ser mãe – a maternidade é algo que começa no momento da concepção e abrange vários processos: cuidar, educar, fazer dos filhos seres independentes, prontos para a vida.

Muitas tragédias e frustrações seriam evitadas se as mulheres incapacitadas para amar suas crias desistissem de ser mães. É um problema que envolve tudo: do sistema econômico aos preceitos religiosos. No Brasil, uma adolescente pobre que engravida ganha um certo status de independência, passaporte para a idade adulta. Mesmo que no futuro ela obrigue os filhos a pedir esmola nos semáforos.

Outras percebem tarde demais a falta de vocação para a maternidade. Li uma notícia que na Inglaterra, uma mulher levou os seus três filhos à escola e ao retornar deixou um bilhete na casa de sua mãe, dizendo que ia “tirar férias” em Malta, uma ilha do Mediterrâneo. E tchauzinho. (Detalhe: pagou a viagem com o dinheiro que o governo lhe dava para sustentar os filhos). Ao iniciar as investigações sobre o caso, a polícia descobriu que na casa da criatura não havia luz, gás, nem comida. De tão suja, a casa parecia uma pocilga. Era ali que ela criava as três crianças. Quando retornou a mãe viajante foi condenada a um ano e meio de prisão por crueldade infantil e perdeu a guarda dos filhos. Acho que esta parte ela deve ter gostado.

 

Raimundo de Moraes

Cartaz do filme Mamãezinha querida, estrelado por Faye Dunaway.

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05/02/2012 at 13:06

O cômico e o trágico em Vonnegut – artigo de Eliana Cardoso

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Por ocasião da morte de Moacyr Scliar, Luís Fernando Veríssimo, em sua coluna no “Estado de São Paulo”, dizia que nenhum outro escritor brasileiro dominou como Scliar “aquela estreita faixa da imaginação entre o cômico e o trágico frequentada por Kafka e Vonnegut”.

A propósito, Kurt Vonnegut – no seu último livro, “A Man without a Country” (2005) – observa que o humor é uma resposta quase fisiológica ao medo. Ao explicar como o humor funciona, pergunta por que o creme de leite – que vem em pequenas caixinhas de papelão (e não em latas, como no Brasil) – custa tão caro. Ora – diz ele – considere que responder perguntas é difícil. Elas põem à prova nossa inteligência e ficamos envergonhados quando damos a resposta errada. Encabulados pela pergunta sobre o preço do creme de leite nos calamos. Então, quem perguntou oferece a resposta. “Porque as vacas detestam se agachar em cima daquelas caixinhas.” Aliviados, rimos. Não porque a frase seja engraçada. Mas porque sentimos alívio ao saber que não existe “a” resposta correta. Absolvidos, relaxamos a tensão e achamos graça.

Muitas das narrativas de Vonnegut têm a estrutura das piadas, com a tensão que cresce até que, no momento certo, a virada certeira e inesperada providencia o alívio. Mas não se deixe enganar. Vonnegut é um moralista. E é, também, profundo conhecedor da cultura norte-americana e filósofo das tragédias fabricadas pelo homem.

Autor do best-seller “Matadouro 5” – também aplaudido pela crítica literária – Kurt Vonnegut morreu em 2007, aclamado como grande figura do humor negro e satirista social inimitável. O humor negro reconhece o absurdo das “coisas da vida” e as transforma em matéria para riso. Mas a classificação de Vonnegut seja como humorista seja como escritor de literatura de ficção científica limita a compreensão de sua obra, que foi profundamente inovadora, tanto na forma como no conteúdo. Escritor original, de fato merece o lugar ao lado de Kafka que lhe confere Luís Fernando Veríssimo. Na voz de Doris Lessing, Vonnegut foi inigualável: escritor que “dá nome aos lugares que melhor conhecemos.”

“Matadouro 5” (tradução de Cássia Zanon, L&PM Editores, reimpresso em 2009) tem como pano de fundo a destruição de Dresden em 1945. Em 14 de dezembro de 1944, as forças alemãs e aliadas se enfrentaram na batalha das Ardenas,
quando 120.000 alemães e 75.000 americanos morreram. Kurt Vonnegut estava lá.

O choque entre alemães e aliados culminou dois meses mais tarde com a destruição de Dresden em 14 de fevereiro de 1945, em ataque liderado pelas forças britânicas. Embora, naquela época, as forças aliadas tivessem declarado que Dresden era centro de transportes e comunicação, hoje se sabe que sua destruição não serviu a nenhum propósito militar. A rede ferroviária de Dresden não foi afetada pelo ataque. Mas 135.000 civis indefesos morreram incinerados por tempestade de fogo de mais de 500º.

Depois da Segunda Grande Guerra, varreu-se a catástrofe de Dresden para debaixo do tapete. As histórias militares evitavam mencionar o episódio que permaneceu classificado durante algum tempo.

As autoridades britânicas evitaram gabar-se do feito, porque entenderam que não encontrariam apoio nem entre os ingleses nem entre os aliados para o bombardeio da população indefesa de uma das cidades mais bonitas da Europa. Durante algum tempo fingiu-se que a cidade tivesse alguma importância militar. Não era o caso. David Irving documentou os fatos em “A destruição de Dresden” (Nova Fronteira).

A tragédia resultou da indiferença grosseira de seus promotores? De vingança? A destruição ocorreu antes que a existência dos campos de concentração se tornasse conhecida e a única explicação para o descaso que se seguiu à carnificina
é aquela oferecida por um militar no livro de Vonnegut: a história verdadeira deixaria muito perturbada qualquer pessoa dotada de consciência.

Mais civis morreram carbonizados em Dresden do que em Hiroshima. Mas foi através da leitura de “Matadouro 5” que a maioria dos norte-americanos tomou conhecimento da tragédia pela primeira vez. A experiência de Kurt Vonnegut durante a Segunda grande Guerra lhe deu material para criar Billy Pilgrim, o protagonista do romance. A guerra do Vietnã lhe ofereceu o momento para contar a história de Dresden. Hoje, da Líbia ao Afeganistão, sobram motivos para relembrá-la.

“Matadouro 5” começa com uma espécie de prefácio onde o autor descreve a dificuldade de escrever o livro. Em seguida entra Billy Pilgrim, viajante do tempo. A maior parte das viagens de Billy gira em torno de suas experiências como prisioneiro de guerra.

Depois de um acidente de avião, Billy deseja contar a todos suas aventuras no planeta Tralfamadore, cujos habitantes o tinham sequestrado. Entre uma e outra aventura, Billy também recebe pacientes em seu consultório de optometria, que vai muito bem, diz ele. E, porque ele é um viajante do tempo, sabe de antemão o resultado do que faz e o que vai lhe acontecer.

Enquanto a filha o repreende, Billy viaja para as linhas inimigas com outros soldados. Viaja também para a ala de doentes mentais do hospital onde ficara depois da guerra. Viaja para o jardim zoológico de Tralfamadore. Para a própria morte. Para a noite de núpcias com Valencia. Para o campo de prisioneiros de guerra. Para o matadouro (onde os americanos se hospedam em Dresden). Para uma fábrica de xarope. Para os braços de Montana…

Valencia morre a caminho do hospital onde Billy está internado depois do acidente de avião. Billy vai a Nova York falar, em entrevista de rádio, sobre o que aprendeu com os homenzinhos verdes de Tralfamadore. E viaja ainda para a mina de cadáveres de Dresden, onde trabalha desenterrando carcaças. Ali, a polícia apanha o professor secundário, Edgar Derby, com uma chaleira que ele retirara das catacumbas. Edgar Derby é preso por pilhagem, julgado e fuzilado.

Mas afinal chega a primavera. A Segunda Guerra Mundial termina e Billy sai caminhando. “Os pássaros estavam conversando. Um deles disse a Billy Pilgrim: Piu-piu-piu?”

“Matadouro 5” é também um livro sobre ele mesmo, sobre o ato de escrever e o ato de ler, segundo Jerome Klinkowitz, crítico literário e amigo de Vonnegut. Os tralfamadorianos não são invasores. Eles visitam a terra porque sentem curiosidade sobre seus habitantes. Afinal, os terráqueos são únicos seres no universo inteiro que acreditam no livre arbítrio. E acreditar no conceito de livre arbítrio faz mal? Pode fazer, se as pessoas começam a acreditar que são responsáveis por tudo o que acontece e esquecem a responsabilidade maior de inventar histórias e buscar significados.

Billy Pilgrim, como Vonnegut, aceita a responsabilidade de se perguntar sobre o sentido das coisas. Ambos são escritores. Não representantes de escritores que estão ou estiveram escrevendo histórias, mas escritores da história que estamos lendo, ela mesma. Nenhum dos dois tenta representar a realidade. Ambos a inventam: assim buscam o sentido da vida. Tralfamadore é apenas uma imagem.

Os Tralfamadorianos não nos trazem novas tecnologias futuristas, mas uma nova compreensão do tempo. Essa compreensão não nos chega em termos científicos ou filosóficos, mas através da literatura e se relaciona ao propósito e significado da humanidade.

Para Klinkowitz, a preocupação de Kurt Vonnegut com a teoria literária fica clara, porque Billy Pilgrim toma parte num programa de rádio onde se discute um tópico quente daquela época: a morte do romance. Nos idos de 1960, a morte do romance era um tema tão em voga quanto é hoje a discussão sobre a morte do livro.

Billy examina os romances em Tralfamadore e chega à conclusão que se parecem a telegramas recheados de estrelas a separar grupos de símbolos. Seu anfitrião o corrige. Não existem telegramas em Tralfamadore. Telegramas implicam sequência e é exatamente dela que foge o romance tralfamadoriano. Cada grupo de símbolos é uma mensagem breve e urgente, que descreve uma situação. Os símbolos se leem ao mesmo tempo. A simultaneidade substitui a sequência. “O autor os escolheu com cuidado, para que vistos ao mesmo tempo produzam uma imagem da vida que é bonita e surpreendente e profunda.” Não há começo nem fim, apenas momentos maravilhosos, todos eles vistos ao mesmo tempo.

 

Eliana Cardoso é escritora e professora. Alguns livros publicados: Fábulas econômicas, Cuba after Communism e Mosaico da economia. O presente artigo foi publicado no jornal Valor Econômico em abril/2011.

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Written by passeipostei

03/08/2011 at 10:06

Engasguei e não decifrei

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Recentemente li mais um texto de apresentação de um livro novo. Deve ter sido um tanto constrangedor para a autora, que teve rapidamente seu livrinho transformado em pedestal para o crítico. Porque ele, depois de tantos malabarismos e citações empoadas, comparou a quase desconhecida poeta a Charles Baudelaire. Se ela tiver um pouco de autocrítica, nunca mais pedirá para ser decifrada.

É muito curiosa a crítica literária que se faz na imprensa escrita, atualmente. Algumas vezes, ao contrário do que se poderia supor, os críticos truncam suas análises, fazendo do texto uma bula para iniciados – e não uma matéria dirigida ao leitor comum, que folheia seu jornal ou revista à procura de informações mais acessíveis.

A necessidade de divulgar uma interpretação literária menos hermética e mais clara e simples é tão antiga quanto a chegada da crítica literária à imprensa, século 19, na Europa. Isto foi em torno de 1850-1860, com os primeiros artigos assinados por Sainte-Beuve. Depois, já no final do século, Anatole France – junto com Jules Lemaître e Remy de Gourmont – se rebelou contra as detalhadas análises científicas de Sainte-Beuve, apregoando uma crítica mais sensível, onde a análise da obra fosse gerada pela emoção.

No Brasil, ainda existem alguns críticos que não conseguem se desvencilhar de jargões acadêmicos, quando escrevem para jornais e revistas. Poucos conseguem uma leveza de estilo como a de Affonso Romano de Sant’Anna ou Benedito Nunes.

E os prefácios? Existe um tipo peculiar de prefácio, já citado no início deste artigo, que faz com que o autor do livro acabe sufocado pela avalanche de nomes, de inúmeras citações, comparações esdrúxulas. É como se o crítico ou intelectual quisesse provar ao público que é culto (ou gostaria de sê-lo) e que sabe escrever complicado. Para o autor, o que resta é aceitar a faca de dois gumes dos elogios fáceis.

Mas o perigo desse tipo de crítica não termina aí. Ela sai do particular para o geral, quando as elites ou grupos incentivam determinados modismos e as pretensas “descobertas literárias” tornam-se verdades absolutas. Em vez de difusora e realmente descobridora de talentos, a elite de críticos é capaz de cometer grandes erros, marcando e ludibriando toda uma geração de leitores. Até que um dia vença o bom-senso.

Um desses equívocos aconteceu com Virginia Woolf, que foi uma crítica atuante durante a existência da sua editora

Proust foi vítima da crítica de André Gide

Hogarth Press, em Londres. Ela adorava implicar com James Joyce, chegou até mesmo a classificar o seu livro Ulisses de “memorável catástrofe”. Como homem, Virginia considerava Joyce repugnante e egocêntrico. E o que dizer de Marcel Proust? Coitado, foi o próprio André Gide a vetar a publicação de Em busca do tempo perdido. Gide já era escritor e crítico conhecido quando Proust o procurou para publicar sua obra monumental através da Nouvelle Revue Française, onde Gide era diretor. Se Proust tivesse sucumbido à crítica de Gide, talvez os originais de À La recherche du temps perdu teriam ido para o fogo da lareira, lá no seu quarto forrado de cortiça.

Aqui no Brasil também tivemos alguns equívocos cometidos pela crítica. Uma das vítimas foi Lima Barreto. Consideravam-no um escritor esquisito. Esse preconceito contra Lima durou muito tempo, sendo ele praticamente (re)descoberto pela crítica meio século depois da sua morte.

Na década de 1930, uma polêmica dividiu Tristão de Ataíde e Agripino Grieco, no Rio de Janeiro. Tristão acolheu com entusiasmo o surgimento de José Américo de Almeida, autor de A bagaceira. Grieco saudou o escritor paraibano com um artigo chamado Grande romancista ou simples bagaceira? Literalmente um escracho. Pois errou. A bagaceira marcou o início da fase regionalista do romance brasileiro, abrindo caminho para nomes como Graciliano Ramos, José Lins do Rego e Rachel de Queiroz.

Outro equívoco foi cometido por Álvaro Lins, quando Clarice Lispector publicou em 1944 seu primeiro romance, Perto do coração selvagem. Além de se recusar a opinar sobre o original que lhe fora entregue – mandando Clarice procurar Otto Maria Carpeaux – depois que o livro foi publicado Álvaro achou o romance “inacabado”, mostrando-se sarcástico à linguagem intimista de Clarice, rotulando o livro de “literatura feminina” e “narcisista”.

…e Clarice foi vítima de Álvaro Lins

Como informação é poder, torna-se muito delicado o exercício da crítica literária. Principalmente porque, na maioria dos países, a elite intelectual está cada vez mais dividida em compartimentos. Quem sabe se num futuro próximo o crítico literário se tornará um ágil lobista – como já acontece, aliás, nos corredores e seletos grupos que dão acesso aos grandes prêmios de cultura, como o Goncourt, o Cervantes, o Nobel. Quem sabe os críticos irão trabalhar para os segmentos que lhes parecerem mais simpáticos às suas ideologias e conhecimentos. E o que diria Aldous Huxley desse “admirável” mundo novo?
 

 

Raimundo de Moraes

 

 
 

 
Artigo publicado em novembro de 1995, no Jornal do Commercio, Recife.  Foi publicado com o seguinte título (inventado pelo editor): Para a crítica decifrar é às vezes devorar. Aqui, publicado com o seu título original.

 

 

O FIM (DO SÉCULO) FOI SÓ UM COMEÇO

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Uma das moçoilas de Alfons Maria Mucha (1860-1939) num anúncio de biscoitos.

 
 
 

Para qualquer antropólogo e sociólogo, ou algum leigo que se interesse pelo assunto, uma pesquisa da produção publicitária de uma sociedade revela uma grande fonte de informações sobre status econômico, sobre a cultura predominante e os modismos em voga.

A Belle Époque – período da história da França compreendido entre o final do séc. 19 até o início da primeira guerra mundial, 1914 – registrou através da publicidade um outro momento historicamente importante: as benesses da Revolução Industrial (iniciada a partir do séc. 18) como o aumento do capital de giro e da oferta de bens de consumo, e a consolidação do capitalismo como sistema econômico-social, em contraponto às emergentes ideias socialistas divulgadas por Engels e Karl Marx.

Foi um período de grande efervescência cultural, nas artes plásticas, na música, na literatura. O mundo assistia curioso o surgimento do cinema, dos automóveis, dos aviões e de outras modernidades. E os artistas em Paris registravam essa ebulição nos anúncios de conhaque, charutos, bicicletas, viagens, cabarés etc. Hoje esses anúncios e cartazes (os primórdios dos banners em PDVs) transformaram-se em ícones e obras de arte (muitas reproduções são vendidas atualmente em leilões, galerias e até em lojas virtuais).

Nos dicionários e verbetes a expressão Belle Époque está associada à art nouveau – e ambas quase se tornam sinônimos. A art nouveau é o primeiro movimento artístico dirigido exclusivamente ao design. Ela é a alma e a própria essência da Belle Époque. Curvas sinuosas, animais, ramagens etéreas, letras rebuscadas, mulheres sensuais: a identidade art nouveau é tão facilmente reconhecível tal qual outros movimentos artísticos famosos como o Impressionismo ou Abstracionismo. Suas cores e linhas chegaram até nós através de designs de móveis, vitrais, objetos de decoração, joias, capas de livros, programas de shows, anúncios. A fotografia, apesar de já existir desde dos idos da década de 1830, foi pouco usada na publicidade durante o restante do século 19. Os anunciantes preferiam usar os recursos de ilustradores.

O termo art nouveau surgiu a partir do nome de uma loja em Paris com este nome, e que vendia móveis de acordo com o novo estilo. Na Alemanha, o movimento ganhou o nome de Jungedstil; na Itália, Floreale, e na Inglaterra, Liberty ou Modern Style. Aqui no Brasil, tivemos poucos representantes da art nouveau, talvez o mais importante seja Eliseu Visconti, de origem italiana e que estudou na École Guérin em Paris, sendo discípulo de Eugène Grasset no curso de artes decorativas.

Os artistas gráficos da Belle Époque retratavam uma era dourada em que Paris era o centro mundial das ideias e o francês ainda era o idioma universal da cultura. Alphonse Mucha, Eugène Ogé, Francisco Tamagno, Jules Cheret, Maurice Feuillet, Steinlein e tantos outros captaram de maneira genial a joie de vivre da boemia parisiense. Apenas usando talento e os recursos da recém-criada litografia colorida.  Com esses ilustres cidadãos de fin-de-sécle, a publicidade deu um grande salto em impacto visual, ganhando um toque de glamour e sensualidade, numa época que não existia ainda Photoshop e suas infinitas alternativas de tratamento de imagem.

A Belle Époque, como momento histórico, continuará a inspirar novos talentos pelo mundo afora. E como apelo visual irá sempre dialogar com o contemporâneo e com as novas mídias, recriando-se nos anúncios do século 21. Como por exemplo ninfetas lânguidas vendendo sandalinhas coloridas ou modelos seminuas deitadas em cenários de folhas e flores. Visual ecológico, visual art nouveau.
 
 
 

Raimundo  de  Moraes

 
 
 

Written by passeipostei

19/05/2011 at 18:27

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