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Archive for the ‘Contos’ Category

irmãzinha

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aymmar rodriguéz

 
 
 
ela sentou ao meu lado no ônibus. me olhou. começou a cantar seus hinos religiosos. eu sei que tenho cara de depravada. então por solidariedade cantei junto com a crente. ela louvando o deus pudico, eu louvando alegremente o meu furico.
 
 

NOAKES_Regina_Chorus

 
 
 

Imagem: Chorus (detalhe), de Regina Noakes.

 

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Written by passeipostei

03/05/2015 at 21:32

Publicado em Contos

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Coelhinho da Páscoa, o que trazes pra mim?

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Raimundo de Moraes

 

 

 

 

 

Betina e Ramiro eram católicos apostólicos romanos convictos e praticantes, até se abstinham de comer carne vermelha na Sexta-feira Santa.
– Veja, Betina, este panfleto. Que vergonha! Oferecem ovos de Páscoa de todos os tipos e preços e esquecem o verdadeiro sentido da data!
– É mesmo, meu amor. Antigamente havia mais respeito com a Quaresma e com o Nosso Senhor.
Os dois também estavam preocupados com o filho, Ramiro Jr. O casal purgava o inferno na terra através dessa criatura sempre criada com amor e carinho. Apesar desses cuidados, com quatro anos de idade Ramiro Jr. já tinha sido expulso de dois colégios, e nem fora iniciado na alfabetização.
Nunca quis chupeta, com um ano deixou de molhar a cama. Aos dois já destruía todos os brinquedos – para ver como funciona, pensavam os pais, que gracinha – e uma longa sucessão de babás abandonaram seu posto por motivos de violência: mordidas, arranhões na cara e até um garfo enfiado numa coxa robusta.
Não adiantava castigos, conversas, palmadas na bunda.
– Ramiro, meu bem, em que erramos?
– O que disse a última psicóloga? Ele é hiperativo?
– Não. Ele tem tendências homicidas.
Além disso, em época de Páscoa, Júnior entrava numa agitação febril. Os ovos de chocolate lhe fascinavam de uma maneira que ele chegava a delirar diante de um anúncio ou diante de um teto decorativo de uma loja pronta para vender milhões de ovos e deixar todos felizes – cristãos ou não.
No seu primeiro surto pascoalino Juninho abraçou um ovo gigante nas Lojas Americanas e só saiu de lá depois que Ramiro e Betina passaram – filho e chocolate – na máquina do caixa.
No ano seguinte – já na escolinha – desenhava ovos e ovos e ovos, babava os papéis, arregalava os olhos, a Tia Laura assustada: Juninho, você quer colorir o coelhinho carregando a cestinha? Ele cuspiu na cara da professora: eu quero um ovo! Bem grande!
E a Páscoa se aproximava.
– Ramiro, meu amor, que tal passarmos o feriado da Semana Santa no interior e fugirmos desse consumismo alienante?
– Boa ideia – abraçou-a: será que podemos fazer amor hoje? (eles eram católicos praticantes e usavam a tabelinha. Mas Ramiro nunca contou para a mulher que era estéril, a caxumba já tinha detonado os seus ovos reprodutores. Quem seria o pai de Juninho? Enfim, perdoar é algo divino. E Betina, por sua vez, nunca contou pro marido que usava anticoncepcional desde o nascimento do herdeiro, pois sempre achou que pro papa e pros cardeais pimenta no cu dos outros é refresco. Se viesse outro filho endemoniado ela não aguentaria, cruz credo. Melhor se prevenir).
– Para onde vamos?, perguntou Ramiro Jr. dentro do carro com os pais.
– Uma fazendinha no interior, filhinho. Lá tem cavalinho de verdade pra você andar nele, vai poder pescar com papai, tem outras crianças…
– E meu ovo? E meu ovo? Vou ganhar ovo de Páscoa?
– Lá na fazendinha a gente vê isso.
– Quero meu ovo AGORA!
Juninho teve ataque histérico dentro do carro, berrando, pulando, batendo contra os vidros. Os pais assustadíssimos. As pessoas olhavam.
– Fazendinha não! Fazendinha não! Quero meu ovo!
Bem, entraram num supermercado.
– O que faremos, Betina?
– Temos que ter calma, meu amor. Jesus disse: vinde a mim as criancinhas.
Ramiro empurrava o carrinho com o filho dentro rodeado de ovos de chocolate. Estava numa felicidade delirante: pegue aquele ali amarelo, papai! Tem brinquedo dentro!
– Sim, Juninho.
Retornaram para casa. No jantar Ramiro Jr. não comeu o seu tradicional pacote de batatas fritas com refrigerante – tinha ojeriza a verduras e frutas –engoliu todo o chocolate que pôde. No tapete da sala, embalagens coloridas estavam espalhadas como um segundo chão. As paredes e os sofás melecados de pequenas mãozinhas marrons. Os pais assistiam mudos à televisão.
A primeira diarreia foi às duas da madrugada e sujou o quarto. Vieram outras, até o alvorecer.
No café da manhã, Betina disse: ainda tem ovinho, filho. Quer? Sorrindo, ele se atirou nas sobras com renovado entusiasmo. Depois papai chegou da rua com mais ovos nos braços. Ovos beeeeem grandes! Que delícia!
Sábado de Aleluia. Nunca se cagou tanto naquela casa – oh Senhor, tenha piedade.
– Este aqui veio cheio de jujubas dentro, filho. Coma… isso… coma tudo.
Sucessivos banquetes de chocolates foram servidos e engolidos.
Enfim no domingo trombetas intestinais anunciavam o fim de Ramiro Jr. Em seu desfalecimento e glória, seu pai parecia um Chokito, sua mãe um Sonho Valsa. Já perto da meia-noite, entraram na emergência do hospital com o filho nos braços. Não aconteceu nenhum milagre: desidratado e intoxicado, morreu Juninho.
Foi enterrado vestido como coelhinho da Páscoa, uma fantasia azul e branca cedida por uma vizinha.
– Betina, que coisa horrível! Enterrá-lo vestido assim!
– Mamãe, Juninho adorava a Páscoa. E é uma época de renascimento para todos os cristãos.
– Era um amor de criança. De onde estiver deve estar orando por nós.
– Amém, amém.

 

 

 

Written by passeipostei

14/04/2014 at 20:00

Antes do Baile Verde

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Lygia Fagundes Telles

 

 

 

O rancho azul e branco desfilava com seus passistas vestidos à Luís XV e sua porta-estandarte de peruca prateada em forma de pirâmide, os cachos desabados na testa, a cauda do vestido de cetim arrastando-se enxovalhada pelo asfalto. O negro do bumbo fez uma profunda reverência diante das duas mulheres debruçadas na janela e prosseguiu com seu chapéu de três bicos, fazendo rodar a capa encharcada de suor.
– Ele gostou de você- disse a jovem voltando-se para a mulher que ainda aplaudia. – O cumprimento foi na sua direção, viu que chique?
A preta deu uma risadinha.
– Meu homem é mil vezes mais bonito, pelo menos na minha opinião. E já deve estar chegando, ficou de me pegar às dez na esquina. Se me atraso, ele começa a encher a caveira e pronto, não sai mais nada.
A jovem tomou-a pelo braço e arrastou-a até a mesa-de-cabeceira. O quarto estava resolvido como se um ladrão tivesse passado por ali e despejado caixas e gavetas.
– Estou atrasadíssima, Lu! Essa fantasia é fogo… Tenha paciência, mas você vai me ajudar um pouquinho.
– Mas você ainda não acabou?
Sentando-se na cama, a jovem abriu sobre os joelhos o saiote verde. Usava biquíni e meias rendadas também verdes.
– Acabei o quê, falta pregar tudo isso ainda, olha aí… Fui inventar um raio de pierrete dificílima!
A preta aproximou-se, alisando-se, com as mãos no quimono de seda brilhante. Espetado na carapinha trazia um crisântemo de papel-crepom vermelho. Sentou-se ao lado da moça.
O Raimundo já deve estar chegando, ele fica uma onça se me atraso. A gente vai ver os ranchos, hoje quero ver todos.
– Tem tempo, sossega – atalhou a jovem.Afastou os cabelos que lhe caíam nos olhos. Levantou o abajur que tombou na mesinha. – Não sei como fui me atrasar desse jeito.
– Mas não posso perder o desfile, viu, Tatisa? Tudo, menos perder o desfile!
– E quem está dizendo que você vai perder?
A mulher enfiou o dedo no pote de cola e baixou-o de leve nas lantejoulas do pires. Em seguida, levou o dedo até o saiote e ali deixou as lantejoulas formando uma constelação desordenada. Colheu uma lantejoula que escapara e delicadamente tocou com ela cola. Depositou-a no saiote, fixando-a com pequenos movimentos circulares.
– Mas tiver que pregar as lantejoulas em todo o saiote…
– Já começou a queixação? Achei que dava tempo e agora não posso largar a coisa pela metade, vê se entende! Você ajudando vai num instante, já me pintei, olha aí, que tal minha cara? Você nem disse nada, sua bruxa! Hein?… Que tal?
Ficou bonito, Tatisa. Com o cabelo assim verde você está parecendo uma alcachofra, tão gozado. Não gosto é desse verde na unha, fica esquisito.
Num movimento brusco, a jovem levantou a cabeça para respirar melhor. Passou o dorso da mão na face afogueada.
– Mas as unhas é que dão a nota, sua tonta. É um baile verde, as fantasias têm que ser verdes, tudo verde. Mas não precisa ficar me olhando, vamos, não pare, pode falar, mas vá trabalhando. Falta mais da metade, Lu!
– Estou sem óculos, não enxergo direito sem os óculos.
– Não faz mal – disse a jovem, limpando no lençol o excesso de cola que lhe escorria pelo dedo. Vá grudando de qualquer jeito que lá dentro ninguém vai reparar, vai ter gente à beça. O que está me endoidando é este calor, não aguento mais, tenho a impressão de que estou me derretendo, você não sente? Calor bárbaro!
A mulher tentou prender o crisântemo que resvalara para o pescoço. Franziu a testa e baixou o tom de voz.
– Estive lá.
– E daí?
– Ele está morrendo.
Um carro passou na rua, buzinando freneticamente. Alguns meninos puseram-se a cantar aos gritos, o compasso marcado pelas batidas numa panela: A coroa do rei não é de ouro nem de prata…
– Parece que estou num forno – gemeu a jovem dilatando as narinas porejadas de suor. – Se soubesse, teria inventado uma fantasia mais leve.
– Mais leve do que isso? Você está quase nua. Tatisa. Eu ia com a minha havaiana, mas só porque aparece um pedaço da coxa o Raimundo implica. Imagine você então…
Com a ponta da unha, Tatisa colheu uma lantejoula que se enredara na renda da meia. Deixou-a cair na pequena constelação que ia armando na barra do saiote e ficou raspando pensativamente um pingo ressequido de cola que lhe caíra no joelho. Vagava o olhar pelos objetos, sem fixar-se em nenhum. Falou num tom sombrio:
– Você acha, Lu?
– Acha o quê?
– Que ele está morrendo?
– Ah, está sim. Conheço bem isso, já vi um monte de gente morrer, agora já sei como é. Ele não passa desta noite.
– Mas você já se enganou uma vez, lembra? Disse que ele ia morrer, que estava nas últimas… E no dia seguinte ele já pedia leite, radiante.
– Radiante? – espantou-se a empregada. Fechou num muxoxo os lábios pintados de vermelho-violeta. – E depois, eu não disse não senhora que ele ia morrer, eu disse que ele estava ruim, foi o que eu disse. Mas hoje é diferente, Tatisa. Espiei da porta, nem precisei entrar para ver que ele está morrendo.
– Mas quando fui lá ele estava dormindo tão calmo, Lu.
– Aquilo não é sono. É outra coisa.

Afastando bruscamente om saiote aberto nos joelhos, a jovem levantou-se. Foi até a mesa, pegou a garrafa de uísque e procurou um copo em meio da desordem dos frascos e caixas. Achou-o debaixo da esponja de arminho. Sopro o fundo cheio de pó-de-arroz e bebeu em largos goles, apertando os maxilares. Respirou de boca aberta. Dirigiu-se à preta.
– Quer?
– Tomei muita cerveja, se misturo dá ânsia.
A jovem despejou mais uísque no copo.
– Minha pintura não está derretendo? Veja se o verde dos olhos não borrou… Nunca transpirei tanto, sinto o sangue ferver.
– Você está bebendo demais. E nessa correri… Também não sei por que essa invenção de saiote bordado, as lantejoulas vão se desgrudar todas no aperto. E o pior é que não posso caprichar, com o pensamento no Raimundo lá na esquina…
– Você é chata, não Lu? Mil vezes fica repetindo a mesma coisa, taque-taque-taque-taque! esse cara não pode esperar um pouco?
A mulher não respondeu. Ouvia com expressão deliciada a música de um bloco que passava já longíquo. Cantarolou em falsete: Acabou chorando… acabou chorando…
– No outro carnaval entrei num bloco de sujos e me diverti à grande. Meu sapato até desmanchou de tanto que dancei.
– E eu na cama, podre de gripe, lembra? Neste quero me esbaldar.
– E seu pai?
Lentamente a jovem foi limpando no lençol as pontas dos dedos esbranquiçados de cola. Tomou um gole de uísque. Voltou a afundar o dedo no pote.
– Você quer que eu fique aqui chorando, não é isso que você quer? Que que eu cubra a cabeça com cinza e fique de joelhos rezando, não é isso que você está querendo? – Ficou olhando para a ponta do dedo coberto de lantejoulas. Foi deixando no saiote o dedal cintilante. – Que é que eu posso fazer? Não sou Deus, sou? Então? Se ele está pior, que culpa tenho eu?
– Não estou dizendo que você é culpada, Tatisa. Não tenho nada com isso, ele é seu pai, não meu. Faça o que bem entender.
– Mas você começa a dizer que ele está morrendo!
– Pois está mesmo.
– Está nada! Também espiei, ele está dormindo, ninguém morre dormindo daquele jeito.
– Então não está.
A jovem foi até a janela e ofereceu a face ao céu roxo. Na calçada, um bando de meninos brincava com bisnagas de plástico em formato de banana, esguichando água um na cara do outro.
Interromperam a brincadeira para vaiar um homem que passou vestido de mulher, pisando para fora nos sapatos de saltos altíssimos. “Minha lindura, vem comigo, minha lindura!” – gritou o moleque maior, correndo atrás do homem. Ela assistia à cena com indiferença. Puxou com força as meias presas aos elásticos do biquíni.
– Estou transpirando feito um cavalo. Juro que se não tivesse me pintando, me metia agora num chuveiro, besteira a gente se pintar antes.
– E eu não aguento mais de sede- resmungou a empregada, arregaçando as  mangas do quimono. – Ai! uma cerveja bem geladinha . Gosto mesmo é de cerveja, mas o Raimundo prefere cachaça. No ano passado, ele ficou de porre os três dias, fui sozinha no desfile. Tinha um carro que foi o mais bonito de todos, representava um mar. Você precisa ver aquele monte de sereias enroladas em pérolas. Tinha pescador, tinha pirata, tinha polvo, tinha tudo! Bem lá em cima, dentro de uma concha abrindo e fechando, a rainha do mar coberta de joias…
– Você já se enganou uma vez – atalhou a jovem. – Ele não pode estar morrendo, não pode. Também estive lá antes de você, ele estava dormindo tão sossegado. E hoje cedo até me reconheceu, ficou me olhando, me olhando e depois sorriu. Você está bem papai?, perguntei e ele não respondeu mas vi que entendeu perfeitamente o que eu disse.
– Ele se fez de forte, coitado.
– De forte, como?
– Sabe que você tem o seu baile, não quer atrapalhar.
– Ih, como é difícil conversar com gente ignorante – explodiu a jovem, atirando no chão as roupas amontoadas na cama, Revistou os bolsos de uma calça comprida. – Você pegou meu cigarro?
– Tenho minha marca, não preciso dos seus.
– Escuta, Luzinha, escuta – começou ela, ajeitando a flor na carapinha da mulher. – Eu não estou inventando, tenho certeza de que ainda hoje cedo ele me reconheceu. Acho que nessa hora sentiu alguma dor porque uma lágrima foi escorrendo daquele lado paralisado. Nunca vi ele chorar daquele lado, nunca. Chorou só daquele lado, uma lágrima tão escura…
– Ele estava se despedindo.
– Lá vem você de novo, merda! Pare de bancar o corvo, até parece que você quer que seja hoje. Por que tem que repetir isso, por quê?
– Você mesmo pergunta e não quer que eu responda. Não vou mentir, Tatisa.
A jovem espiou debaixo da cama. Puxou um pé de sapato. Agachou-se mais, roçando os cabelos verdes no chão. Levantou-se , olhou em redor. E ajoelhou-se devagarinho diante da preta. Apanhou o pote de cola.
– E se você desse um pulo lá só para ver?
– Mas você quer ou não que eu acabe isto? – a mulher gemeu exasperada, abrindo e fechando os dedos ressequidos de cola.
– O Raimundo tem ódio de esperar, hoje ainda apanho!
A jovem levantou-se. Fungou, andando rápido num andar de bicho na jaula. Chutou o sapato que encontrou no caminho.
– Aquele médico miserável. Tudo culpa daquela bicha. Eu bem disse que não podia ficar com ele aqui em casa, eu disse que não sei tratar de doente, não tenho jeito, não posso! Se você fosse boazinha, você me ajudava, mas você não passa de uma egoísta, uma chata que não quer saber de nada. Sua egoísta!
– Mas Tatisa, ele não é o meu pai, não tenho nada com isso, até que ajudo muito sim senhora, como não? Todos esses meses quem é que tem aguentado o tranco? Não me queixo porque ele é muito bom, coitado. Mas tenha a santa paciência, hoje não! Já estou fazendo demais aqui plantada quando devia estar na rua.
Com um gesto fatigado, a jovem abriu a porta do armário. Olhou-se no espelho. Beliscou a cintura.
– Engordei, Lu.
– Você, gorda? Mas você é só osso, menina. Seu namorado não tem onde pegar. Ou tem?
Ela ensaiou com os quadris um movimento lascivo. Riu. Os olhos animaram-se:
– Lu, Lu, pelo amor de Deus, acabe logo que à meia-noite ele vem me buscar. Mandou fazer um pierrô verde.
-Também já me fantasiei de pierrô. Mas faz tempo.
– Vem num tufão, viu que chique?
– Que é isso?
– É um carro muito bacana, vermelho. Mas não fique aí me olhando, depressa, Lu, você não vê que… – Passou ansiosamente a mão no pescoço. – Lu, Lu por que ele não ficou no hospital?!
Estava tão bem no hospital…
– Hospital de graça é assim mesmo, Tatisa. Eles não podem ficar a vida inteira com um doente que não resolve, tem doente esperando até na calçada.
– Há meses que venho pensando nesse baile. Ele viveu sessenta e seis anos. Não podia viver mais um dia?

A preta sacudiu o saiote e examinou-o a uma certa distância. Abriu-o de novo no colo e inclinou-se para o pires de lantejoulas.
– Falta só um pedaço.
– Um dia mais…
– Vem me ajudar, Tatisa, nós duas pregando vai num instante.
Agora ambas trabalhavam num ritmo acelerado, as mãos indo e vindo do pote de cola ao pires e do pires ao saiote, curvo como uma asa verde, pesada de lantejoulas.
– Hoje o Raimundo me mata – recomeçou a mulher, grudando as lantejoulas meio ao acaso. Passou o dorso da mão na testa molhada. Ficou com a mão parada no ar. Você não ouviu?
A jovem demorou para responder.
– O quê?
– Parece que ouvi um gemido.
Ela baixou o olhar.
– Foi na rua.
Inclinaram as cabeças irmanadas sob a luz amarela do abajur.
– Escuta, Lu, se você pudesse ficar hoje, só hoje – começou ela num tom manso. Apressou-se: – Eu te daria meu vestido branco, aquele meu branco, sabe qual é? E também os sapatos, estão novos ainda, você sabe que eles estão novos. Você pode sair amanhã, você pode sair todos os dias, Lu, fica hoje!
A empregada empertigou-se, triunfante.
– Custou, Tatisa, custou. Desde o começo eu já estava esperando. Ah, mas hoje nem que me matasse eu ficava, hoje não. – O crisântemo caiu enquanto ela sacudia a cabeça. Prendeu-o com um grampo que abriu entre os dentes. – Perder esse desfile? Nunca! Já fiz muito – acrescentou sacudindo o saiote. – Pronto, pode vestir. Está um serviço porco mas ninguém vai reparar.
– Eu podia te dar o casaco azul – murmurou a jovem, limpando os dedos no lençol.
– Nem que fosse para ficar com meu pai eu ficava, ouviu isso, Tatisa? Nem com meu pai, hoje não.
Levantando-se de um salto, a moça foi até a garrafa e bebeu de olhos fechados mais alguns goles. Vestiu o saiote.
– Brrrr! Esse uísque é uma bomba – resmungou, aproximando-se do espelho. – Anda, venha aqui me abotoar, não precisa fica aí com essa cara. Sua chata.
A mulher tateou os dedos por entre o tule.
– Não acho os colchetes.
A jovem ficou diante do espelho, as pernas abertas, a cabeça levantada. Olhou para a mulher através do espelho:
– Morrendo coisa nenhuma, Lu. Você estava sem os óculos quando entrou no quarto, não estava? Então não viu direito, ele estava dormindo.
– Pode ser que me enganasse mesmo.
– Claro que se enganou. Ele estava dormindo.
A mulher franziu a testa, enxugando na manga do quimono o suor do queixo. Repetiu como um eco:
– Estava dormindo, sim.
– Depressa, Lu, faz uma hora que está com esses colchetes!
– Pronto – disse a outra, baixinho, enquanto recuava até a porta.
– Não precisa mais de mim, não é?
– Espera! – ordenou a moça perfumando-se rapidamente. Retocou os lábios, atirou o pincel ao lado do vidro destapado. – Já estou pronta, vamos descer juntas.
– Tenho que ir, Tatisa!
– Espera, já disse que estou pronta – repetiu, baixando a voz.- Só vou pegar a bolsa…
– Você vai deixar a luz acesa?
– Melhor, não? A casa fica mais alegre assim.
No topo da escada ficaram mais juntas. Olharam na mesma direção: a porta estava fechada. Imóveis como se tivessem sido petrificadas na fuga, as duas mulheres ficaram ouvindo o relógio da sala. Foi a preta quem primeiro se moveu. A voz era um sopro:
– Quer ir dar uma espiada, Tatisa?
– Vá você, Lu…
Trocaram um rápido olhar. Bagas de suor escorriam pelas têmporas verdes da jovem, um suor turvo como o sumo de uma casca de limão. O som prolongado de uma buzina se fragmentou lá fora. Subiu poderoso o som do relógio. Brandamente a empregada desprendeu-se da mão da jovem. Foi descendo a escada na ponta dos pés. Abriu a porta da rua.
– Lu! Lu! – a jovem chamou num sobressalto. Continha-se para não gritar. – Espera aí, já vou indo!
E apoiando-se ao corrimão, colada a ele, desceu precipitadamente. Quando bateu a porta atrás de si, rolaram pela escada algumas lantejoulas verdes na mesma direção, como se quisessem alcançá-la.

 

 

Este conto faz parte do livro que tem o seu mesmo título – Antes do Baile Verde – que na sua primeira edição, em 1970 pela Editora Bloch, reuniu quinze narrativas de Lygia, produzidas entre 1949 e 1969. Posteriormente, na segunda edição, mais cinco contos foram incluídos. Na publicação atual, da Companhia das Letras, a versão da coletânea apresenta dezoito narrativas. Antes do Baile Verde é considerado um dos melhores livros da escritora paulista, e tema constante nos vestibulares de todo o Brasil.

 

 

Written by passeipostei

24/02/2014 at 19:58

O HOMEM QUE CHAMAVA TERESA

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Italo Calvino

 
 
 
 

Desci da calçada, recuei uns passos, olhando para cima, e, chegando no meio da rua, levei as mãos à boca, como um megafone, e gritei para os últimos andares do prédio:

— Teresa!

A minha sombra se assustou com a lua e se agachou entre meus pés.

Passou alguém. Chamei de novo:

urlo — Teresa!

  A pessoa se aproximou, disse:

  — Se não chamar mais alto não vão escutar. Vamos tentar nós dois. Assim: conto até três, no três gritamos juntos. — E disse: — Um, dois, três.

  E juntos gritamos: — Tereeeesaaa!

  Passou um grupinho de amigos que voltavam do teatro ou do café e viram nós dois chamando. Disseram: — Bom, também podemos ajudar com a nossa voz. — E também foram para o meio da rua e o primeiro dizia um, dois, três e então todos gritavam em coro: — Te-reee-saaa!

  Passou mais um e juntou-se a nós; quinze minutos depois estávamos reunidos num grupo, uns vinte, quase. E de vez em quando chegava mais um.

  Não foi fácil chegarmos a um acordo para gritarmos direito, todos juntos. Havia sempre um que começava antes do “três” ou que demorava demais, mas no final já conseguíamos fazer alguma coisa benfeita. Combinou-se que “Te” seria dito baixo e longo, “re”, agudo e longo, e “sa”, baixo e breve. Funcionou muito bem. Mas, vez por outra, havia uma briga porque alguém desafinava.

  Já começávamos a perder o fôlego quando um de nós, que a julgar pela voz devia ter a cara cheia de sardas, perguntou: — Mas vocês têm certeza de que ela está em casa?

— Eu não — respondi.

— Que confusão — disse um outro. — Esqueceu a chave, não é?

— Na verdade — disse eu —, estou com a chave aqui.

— Então — me perguntaram —, por que não sobe?

— Mas eu nem moro aqui — respondi. — Moro no outro lado da cidade.

— Mas então, desculpe a curiosidade — perguntou circunspecto o sujeito da voz cheia de sardas —, quem é que mora aqui?

— Para falar a verdade, não sei — disse eu.

Houve um certo descontentamento ao redor.

— Mas então se pode saber — perguntou outro com a voz cheia de dentes — por que está chamando Teresa aqui de baixo?

— Por mim — respondi — também podemos chamar outro nome, ou em outro lugar. Não custa nada.

Os outros estavam meio aborrecidos.

— O senhor não teria desejado fazer uma brincadeira conosco? — perguntou o das sardas, desconfiado.

— Eu, hein! — disse, ofendido, e me virei para os outros para pedir que confirmassem minhas boas intenções. Os outros ficaram calados, mostrando não terem captado a insinuação.

Houve um instante de constrangimento.

— Vejamos — disse um deles, bondoso. — Podemos chamar Teresa mais uma vez, e depois vamos para casa.

E chamamos mais uma vez — um, dois, três, Teresa! —, mas já não deu muito certo. Depois nos dispersamos, uns por aqui, outros por ali.

Eu já havia chegado à praça quando tive a impressão de ainda ouvir uma voz que gritava: — Tee-reee-sa!

Alguém deve ter ficado chamando, obstinado.

 
 

Do livro Um general na biblioteca. Imagem: Urlo, de Lara Spadetto.

 
 

Written by passeipostei

03/07/2013 at 0:03

CHAMEGO *

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Raimundo de Moraes

 

 

 

 

 

 

Marília!, gritavam lá do jardim.
Zezé enxuga o rosto molhado de suor.
– Acho que Tavinha chegou.
Marília põe no chão a travessa de castanhas-de-caju e sai correndo.
Na sala Sofia já recebia as visitas.
– Os bondes estão cheios demais, Dona Sofia – disse a avó de Otávia. Eu não aguentei tanta agitação e pegamos um carro de aluguel na Encruzilhada.
– Do portão a gente já sente o cheiro da canjica.
– Que nada, minha filha. Zezé nem terminou de ralar as espigas… Deve ser a canjica da vizinha. Este ano não pude ajudar na cozinha. Uma dor vem descendo do ombro até às pontas dos dedos, o braço formigando…
– Ah, eu sei o que é isso, disse a avó. Dor nos ossos deixa a pessoa toda desarrumada por dentro.
Dona Sofia olhou para a visita com certo espanto. Nunca tinha ouvido falar em estar desarrumada por dentro. O que esta criatura quis dizer? Enfim.
As primas riam, conversavam baixinho.
– Mamãe, vou com Tavinha pro meu quarto.
– Vá, minha filha, vá. E a senhora, Dona Celina, quer alguma coisa? Um café, um refresco? Olhe, não se acanhe.

 

Bandeirinhas_Sao__Joao

 

 

– E então? Enfiou a faca?
– Enfiei. Apareceu um C. Eu não conheço nenhum rapaz com a letra C.
– Você já tirou a faca da bananeira, Otávia? Era pra tirar hoje à meia-noite! Assim não funciona! Hoje é véspera do dia de Santo Antonio. O dia mesmo é amanhã.
– E o que é que tem? À meia-noite vou estar aqui, como ia tirar? Você fez a sua?
– Estamos sem bananeira aqui em casa. A única mais perto é a do quintal de Seu Galindo, que não gosta de papai, já brigaram por causa de política. Mas coloquei as agulhas na bacia e as duas se encontraram. Acredita?
– Acho essa adivinhação das agulhas meio fraca. Você nem é noiva nem nada. Por que não coloca os papéis enrolados debaixo do travesseiro?
– Colocar o nome de quem? Pois eu só quero aquela pessoa…
– Aff. Você ainda acredita que Netinho vai aparecer por aqui? Dois anos fora e só escreveu três cartas.
– Ele mandou um cartão liiiindo no Natal. Mamãe achou de muito bom gosto.
Sentou na beira da cama. Apertou as mãos da prima.
– Um segredo. Só para nós duas. Mandei uma foto minha com dedicatória e uma carta convidando ele pro meu aniversário.
Falar em aniversário era uma tristeza para Otávia. Marília nascera no dia de São João e ela no dia de Finados. Sempre fizeram sua festa no dia seguinte, em respeito aos mortos.
– E você acha que ele vem?
– Não sei, não sei. Agora que a guerra acabou, o que ele vai ficar fazendo no Rio Grande do Norte?
– Pode ser que ele tenha encontrado outra moça por lá…
– Lá vem você! Só para me contrariar!
Otávia admirava a fidelidade da prima à memória de Netinho. Só tinham se encontrado algumas vezes nas matinês do Cine Ideal, no Pátio do Terço. Trocaram bilhetes. Quando o namoro parecia começar, o Brasil entra na guerra e lá foi Netinho pra base aérea de Natal.
– O que você vai usar esta noite? Quer ver o meu vestido? – Tavinha começa a remexer nas duas sacolas que trouxera. Ergue um vestido.
– Olhe só. Não é lindo? A costureira disse que copiou igualzinho de um filme, A sombra de uma dúvida. A gola descendo assim é pra disfarçar meu pouco busto.
Aproximou-se do espelho do guarda-roupa segurando o vestido sobre o corpo.
– O que acha, Mari?
Menos eufórica, Marília tenta disfarçar a insegurança que a outra lhe plantou na alma.
– É lindo, Tavinha. Não fiz roupa nova pra Santo Antonio, só pro meu aniversário.
– Mandou fazer? Qual o modelo?
– Já provei, fica pronto terça-feira. É assim: acinturado, saia reta. Posso usar com ou sem casaquinho.
Tirou o vestido das mãos de Tavinha e colocou sobre o seu próprio corpo. As duas ficaram refletidas no espelho.
Oh meu Deus, além de nascer no dia de Finados, não tenho peito nem quadril. Sou uma desgraçada. Marília vai casar logo e eu…
Ajoelhou-se aos pés da cama:
– Ah meu Santo Antonio! Fazei que eu arranje um bom rapaz e faça um bom casamento. Prometo rezar uma novena todo ano em sua graça!
Marília riu.
– Vixe, se acalme. O C vai aparecer hoje.
– Não brinque. Todo mundo olha pra você, tem sempre alguém interessado. Eu não quero acabar vitalina como sua tia Dinorá, segurando vela pros namorados. Deus me livre!
– Que besteira, Tavinha. Você é bonita e jeitosa, vai arranjar um par.
Sentiu-se mal por mentir. A prima magrela lembrava-lhe um bicho, mas não sabia qual. Um ganso?
Otávia se levanta do chão, senta na beira da cama. Olhando para o assoalho diz baixinho:
– Tenho uma pra te contar… daquelas
– O quê? – distraída, Marília ainda observa o efeito do vestido da outra sobre o seu corpo.
– Lembra de Raquel? Aquela loira?
– Aquela que estudou conosco no São José?
– Sim.
– E então?
– Acabou o namoro de um ano.
– Por quê?
Tavinha corre pra cochichar no ouvido da prima:
– …o namorado chupou a língua dela num beijo. E ainda tentou alisar as coxas.
Senta na cama de novo, muito séria. Olha a imagem de Marília no espelho e aguarda sua reação. A outra segura com força o vestido sobre o peito, se sente corar.
– Como se faz uma nojeira dessa com uma moça de família, não é, Mari?
– Eu…
Uma vez no carnaval, no corso da rua da Concórdia, um Arlequim perfumado também fez isso com ela. E ela… e ela… correspondeu.
Se dissesse a Otávia, o que a prima iria achar? Provavelmente ia contar pra todo mundo também.
– Você não acha que Raquel fez certo?
– Acho que sim. Mas um ano de namoro… Tem certeza que só foi esse o motivo?
– Só esse? E você deixaria que algum rapaz fizesse isso com você, hein?
– Não, claro que não.
Dobrou o vestido, colocou sobre uma cadeira. Antes, estava disposta a contar para Otávia que descobrira escondido na estante do pai um livro chamado Nossa Vida Sexual, do Dr. Fritz Khan. Mas agora achou perigoso demais revelar esse segredo. Pensou em até mostrar o livro para ela. As figuras… Numa parte, um homem e uma mulher. Nus. E as ilustrações sobre as doenças venéreas? Se Tavinha as visse talvez vomitasse ou desmaiasse.
Abriu mais as cortinas.
– Finalmente a guerra acabou. Não aguentava mais aqueles blecautes, aqueles panos pretos nas janelas.
– Eu também.
– No dia de São João vou tirar o atrasado. Vamos comemorar o meu aniversário e a paz no mundo.

 

Bandeirinhas_Sao__Joao

 

 

– Sente, Dona Celina, sente.
Sofia a guiava pela cozinha. Zezé ralava as últimas espigas. Ao seu redor, vários cocos partidos e uma camada extensa de palhas e sabugos de milho.
– Tem café pronto na mesa, Dona Sofia.
Celina lembrava bem da cozinheira. Ela fazia o melhor doce de mamão verde que já comera em sua vida. Estalou a língua. Encabulada, disfarçou com um pigarro.
– Quantas colheres de açúcar?
– Duas.
– Pois é. Graças a Deus acabou essa guerra.
– Tantos jovens mortos. Ai, quando penso nas dores das mães e esposas…
– Uma tragédia. Ainda bem que só tive filha mulher.
Celina lembra de Tonico, seu filho mais novo. Amancebou-se com uma radioatriz e foram embora pro Rio de Janeiro. Um escândalo. O pai não viu essa pouca-vergonha, já estava viúva. Se meu Nicanor estivesse vivo, morreria da mesma forma. De vergonha.
Pega a xícara. Fecha os olhos, aspira o aroma.
– E Yolanda, está bem?
– Toda inchada, coitadinha. Primeira gravidez, cheia de medos. Nem sai de casa. A distração dela é bordar o enxoval. – Sofia ergue o braço, abre e fecha a mão, continuamente.
– Incomoda muito?
– Dois dias que estou assim.
– A senhora tá é com o sangue grosso, disse Zezé. Se tomasse a garrafada de Pai Inácio, afinava o sangue.
Levanta do tamborete, bate com força o morim grosso que lhe forrava as pernas roliças. Abre o forno. Uma nuvem doce invade a cozinha. Sofia, que está de costas, não vê mas sente o cheiro.
– Fez quindim, Zezé?
– Fiz. Otávia gosta muito, não é, Dona Celina?
– Sim. (Eu também, eu também. Adoro).
Inclinou um pouco a cabeça para ver Zezé tirando a fornada de bolinhos. Brilhavam como joias.

 

Bandeirinhas_Sao__Joao

 

 

– Vai querer batom? É da Coty – faz um ar sedutor olhando para o espelho da cômoda. A mão parada no ar, segurando o batom e oferecendo à prima.
Tavinha pega, indecisa.
– Não é muito vermelho?
– Ah, Otávia! A cor da moda!
Mesmo assim decide não usar. Não com a avó ali lhe vigiando. E os pais viriam mais tarde para a festa.
Marília ataca no pulso seu minúsculo relógio de ouro. Seis da tarde.
Da sala, Zezé grita: quindim!
As primas saem quase correndo do quarto.
Na mesa, um grande pé-de-moleque salpicado de castanhas, pamonhas amarradas na palha do milho, um engorda-marido em fatias – e aprovado em êxtase por Celina -, queijo manteiga, uma travessa de quindins, um bule de café, outro de leite. Quando vão mexendo suas xícaras Zezé chega com um prato de tapiocas.
– Quem vai conduzir a quadrilha?, Tavinha pergunta engolindo o segundo quindim.
– Seu Juju.
– Juvelino? O do ano passado? Acho ele tão… tão..
E baixando a voz ainda mais:
– …tão amulherado.
Marília ri.
– Nem notei.
– Pois repare como ele se rebola quando faz a marcação.
-Ôxe.
Próximas ao rádio, sentadas num marquesão, Sofia e Celina escutam as últimas notas da Ave Maria. Fingem rezar em silêncio. Num gesto automático, Sofia ergue o braço, abre e fecha a mão. Fica envergonhada e se benze, como estivesse encerrando uma prece.
– Meu batom saiu, Tavinha?
– Um pouco.

A porta da sala se abre e Félix entra sorridente, gravata torta de um lado e o chapéu torto de outro. Carrega um grande pacote. Fogos para a festa. Sofia vai ao seu encontro, Celina ergue-se, pesada de bolo e café.
– Papai!
– Titio!
Ele deixa o pacote numa cadeira e abraça todas, menos Celina, que é viúva de respeito. Quando está sozinho com Sofia ele chama a sogra da irmã de asa de urubu, por causa do luto fechado.
– E os músicos, papai?
– Vão chegar daqui a pouquinho. Baião sertanejo! Tem um tal de Pedro Setembrino que vira o capeta quando toca o acordeão!
A viúva se benze. As primas riem.

Marília agarra Tavinha pela cintura e saem dançando pela sala:

Penedo vai
Penedo vem
Penedo é terra
Que Deus quer bem

Sofia vai arrastando o marido para o quarto, a roupa que ele vai usar mais tarde já está passada em cima da cama.
Marília continua a rodopiar com Tavinha, emenda outra música.

O chamego dá prazer
O chamego faz sofrer
O chamego às vezes dói
Às vezes não
O chamego às vezes rói
O coração

Celina se abana com uma revista O Cruzeiro, abre um botão da blusa que lhe aperta a garganta. Olha para a mesa com curiosidade – não provara ainda do pé-de-moleque.

 

Bandeirinhas_Sao__Joao

 

 

Às sete horas Félix e Sofia aparecem na sala já arrumados. Ele de chapéu de couro e alpercatas, ela num vestido de flores miúdas, mangas três quartos.
Sempre rodeado por mulheres, Félix se sente uma criatura abençoada. Era único filho homem da família e quis Deus que não gerasse descendência masculina. Mas não se importava. Recebia amor demais das quatro irmãs, da esposa e das filhas.
Como um menino, abre o pacote de fogos: rojões, bombinhas, busca-pés. Marília e Tavinha remexem em tudo.
O dono da casa vai até à cristaleira e bebe dois cálices de licor de jabuticaba.
– Eita licor arretado.
Se anima, chama todo mundo:
– Vamos fazer um brinde a Santo Antonio!
Pequenos cálices se enchem do líquido escuro.
– Ao melhor São João de todos!
– Ao fim da guerra!, disse Marília.
– Que Santo Antonio nos proteja, disse Otávia.
– Eu não bebo.
– O que é isso, Dona Celina? O licor da Filó é coisa dos deuses! Seis meses no fundo do baú, macerando. Pode beber, pode beber.
– Beba, vovó! É uma delícia!
Depois todos vão pra rua. Celina com um cálice numa mão e um rojão na outra.
Os moradores já estão acendendo suas fogueiras. Zezé junta quatro pedras grandes pra fazer um lume e deixar quente o caldeirão de milho cozido. Ao lado, uma cesta com os milhos que serão assados na brasa. Todos os terraços estão enfeitados com bandeirinhas e pequenos balões. O céu lampeja com os primeiros fogos.
Lá na esquina surge uma caminhonete velha cambaleando. Som de sanfonas e triângulos.
– São eles! São eles!
Levam-se cadeiras para as calçadas, meninas de laços nas cabeças correm pra lá e pra cá, meninos jogam traques de massa aos seus pés.
O cálice de Dona Celina fica vazio e seu rojão sobe impávido espalhando-se numa chuva dourada.
Juvelino surge com um lenço vermelho amarrado no pescoço. Batendo palmas, ordena:
– Vão escolhendo seus pares! Vão escolhendo seus pares! Às nove horas vamos começar a quadrilha!
– Marília, você vai dançar com quem?, pergunta nervosa Tavinha, na verdade preocupada com quem ela mesma iria dançar. Olhava disfarçadamente para os rapazes, a maioria já flertando com outras moças, outros reunidos em pequenos grupos de três ou quatro. Quem? Quem?
A prima parece não escutar, dança no meio-fio sozinha, segurando o vestido, acompanhando o ritmo dos sanfoneiros.
Zezé traz uma cadeira para Celina.
– A senhora quer mais um licorzinho?
Félix finca mais tábuas pra segurar a base da fogueira, que tem quase dois metros de altura. Risca um busca-pé na caixa de fósforos e solta pela rua, gargalha, solta outro.
– Félix!, grita Sofia. Cuidado pra não queimar os vestidos das moças!
De dentro da casa 68 os vizinhos saem carregando um balão amarelo e vermelho.
– Vão escolhendo seus pares!
– Com quem, Marília?
– Tira logo o meu milho! Assim vai queimar!
– Pois é, este ano Zezé fez tudo sozinha.
– Sai de perto! Sai de perto! Mandinho vai girar a estrelinha!
– Viu como está formosa a filha de Sofia? Moça feita. E eu vi nascer. Como o tempo passa, meu Deus.
Lentamente um Hudson verde e brilhante surge no início da rua. O motorista buzina várias vezes. Apesar da rua não ser estreita, está difícil driblar tanta criança e tanta fogueira.
– Mari, quem será?
Félix se aproxima e fica ao lado esposa.
O balão começa a subir e a vizinhança aplaude. O carro estaciona embaixo de uma árvore. Descem dois rapazes, cabelos reluzentes de brilhantina.
– É ele.
– Pelo jeito, a carta chegou, Mari.
– Quem são?, pergunta Félix comendo um milho.
– O mais baixo não sei, mas o alto é o rapaz que Marília se corresponde. Estava de serviço na Base Americana de Natal.
– Boa noite a todos.

 

Bandeirinhas_Sao__Joao

 

 

– Já escolheram seus pares? Criançada, essa é uma quadrilha de gente grande. Vamos lá, minha gente! Damas de um lado, cavalheiros de outro!
– Que surpresa, Netinho. Quase desmaiei de susto.
– Você não me convidou?
– Mas meu aniversário é só no dia 24.
– Achou ruim me ver?
Ela se encabula.
– O que é isso… Acho que foi um presente de aniversário antecipado. Quando volta pro Rio Grande do Norte?
– Dei baixa. Vou ficar aqui no Recife trabalhando com papai.
Está diferente, ombros largos, uma fala firme, parece mais seguro, mais…  mais homem.
– Mari! A quadrilha! Você não vai?
– Lembra da minha prima Tavinha?
– Lembro. Tudo bem, Otávia? Por coincidência eu trouxe um primo. Ei, Cadinho!

 

 

DJANIRA

 

 

– Balancê!
Juju se requebra em cima de uma cadeira, segura um megafone improvisado de cartolina e papel crepom, coordena os dançarinos, sorri para os músicos.
– Me escreveu tão pouco.
– Escrevi pouco mas pensei muito. E só em você.
Ela está mais bonita, tão mais cheia de corpo, tão mais… mais feminina.
– Anarriê! Preparar para a grande roda!
Aproveitando que todos se davam as mãos, Félix puxa Sofia para dançar.
– Não vou, homem! Meu braço! Meu braço!
– Se você não for, eu vou dançar com quem?
– Começar a grande roda!
– Cadinho é apelido de que nome?
– Ricardo.
– E o seu? É apelido de que nome?
– Otávia.
– Gosto de Tavinha, disse rindo.
– Também gosto de Cadinho.
A plateia acompanha a evolução da quadrilha, marca o ritmo batendo palmas. Celina bate palmas também e Zezé lhe traz outro cálice de licor de jabuticaba.
– Preparar para a chuva!
Sofia nem sentiu dor quando ergueu os braços.
Não se via mais o balão amarelo e vermelho, juntou-se a tantos outros enfeitando o céu.
– Viva Santo Antonio! Viva São João! Viva São Pedro!
– Marília, você é a moça mais linda desta festa. A mais linda de todas.
Ela ri. Afinal, por que não haveria de acreditar?

 

 

 

*Chamego (1942), primeiro sucesso de Luiz Gonzaga. Música em parceria com Miguel Lima. Imagem: Festa junina, de Djanira. Conto publicado na coletânea Recife conta o São João, Fundação de Cultura Cidade do Recife, 2008.

 

 

Written by passeipostei

16/06/2013 at 1:16

Um conto de João Paulo Parisio

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APÓLOGO DA IDENTIDADE

 
 

barata                                                 

 

 

                   Eu era uma velha folha de papel esquecida numa escura e maciça cômoda de argolas de ferro. Rochosa ilha de detenção abandonada à própria sorte, governada pelos criminosos. E eu era uma folha vazia. Apenas amarelecera e adquirira manchas senis com o tempo. Durante eras, os cupins deitaram em mim o fino pó da madeira, as traças confabularam do lado de fora, passando ao largo. São um tanto estúpidas, essas tracinhas… Como o cheiro de naftalina na gaveta sobrepujava o meu, jamais cogitaram investigá-la. Bitoladas. As baratas, odiosas, tenazes, astutas baratas, é que me encontraram. Trezentas e trinta e três gerações de baratas transmitiram umas às outras o conhecimento do buraco no piso de minha cela. Que terror me tomava quando eu sentia seu cheiro inconfundível! Áspero era o som de seus passos enquanto se aproximavam, e mesmo na escuridão eu discernia suas silhuetas, seus grandes olhos negros, gulosos, o frenesi de suas antenas, e estremecia de asco quando andavam por cima de mim, arranhando-me com suas pernas serrilhadas. Se defecavam sobre meu corpo ou me mordiscavam, eu quase sempre desfalecia. Tudo por pura maldade. As baratas, que vivem na fartura? Elas jamais precisariam me incluir em sua dieta. O mundo lhes pertence.

 

Mas nada se compara à tortura que me impôs La Cucaracha, uma barata imensa e negra que certa noite adentrou minha masmorra. Aproximou-se devagar, perguntando cínica:

 

– O que há aqui? O que temos aqui? Quem mora nesta casa sombria? Ora, mas vejam! Vejam só! Uma velha inquilina preguiçosa! – e, mudando de tom, sussurrou com um hálito seco e nauseabundo: – É melhor você se levantar e correr, caso contrário vou roer você todinha…

 

Depois de regozijar-se um pouco com meu desespero, começou de fato a roer-me, mas muito, muito lentamente. Com igual vagar, triturava cada um dos pequenos nacos, chiando de prazer. Como é ignóbil o chiar de uma barata! Mas logo, para meu absoluto espanto, se retirou. No entanto, o som que emitiu, uma espécie de riso de mofa contido, me deixou profundamente alarmada. Meus temores não se revelaram infundados, pois na noite seguinte La Cucaracha tornou a entrar em meu cárcere e devorou-me um pouquinho mais. Então, após sucessivas visitas, quando a loucura já se instalara em meu ser, ela invadiu a cela debatendo-se e revirando-se, estrebuchando loucamente como só as baratas são capazes, produzindo um estertor pavoroso. De sua bocarra escorria uma baba viscosa.

 

– Envenenaram-me! Envenenaram-me! – gritava, só que ao me alcançar recuperou sua malícia: – Mas antes de morrer vou terminar esse servicinho…

 

A baba espessa pingou em minha face, e La Cucaracha passou a devorar-me brutalmente, arrancando grandes bocados. Eu podia sentir seu coração pulsar, e ouvia estalos que vinham de dentro de seu corpo. De repente começou a vomitar e ter convulsões – vomitou-me em mim! Depois caiu dura, as seis pernas para cima, dando estirões. Como um cavalo. Eu mesma estava semimorta, em estado de choque. La Cucaracha foi a barata mais cruel que conheci. Mereceu o fim que teve, mas eu não merecia ter ficado debaixo do seu cadáver, do qual logo começou a escorrer uma substância amarelada. Tinha um cheiro atrozacre. Pensei que eu mesma morreria envenenada. Ela inchou como um baiacu, liberou gases e foi minguando até ficar achatada como uma omelete. Com o tempo, começou a se desmanchar. As pernas caíram, a cabeça se separou do corpo. Graças a Deus as formigas – também ardilosas – vieram antes que virasse pó, ergueram-na nas mandíbulas e a carregaram, o veneno tornado inócuo.

 

Mas mesmo tendo passado por todas essas coisas eu afirmo que elas não eram o pior de tudo. O pior de tudo, ah, juro pelas minhas duas páginas e pela minha mísera espessura que o pior de tudo era a solidão e o desprezo. Esses males sim, me roeram quase inteira. Às vezes El Carcelero depositava sobre mim centenas de folhas novas, branquinhas e frescas. Mesmo deliciosas de tão tenras. Para elas, minha presença, minha existência, eram uma afronta, um insulto. Eu era um monstro, um pária, desfigurada, imunda, carcomida. Não ouso mencionar o primeiro apelido que me deram. Ele fazia referência à minha, digamos assim, incompletude. Restrinjo-me ao segundo: eu era La Momia.

 

Essas folhas, que sonhavam em conjunto virem a ser um grande romance, iam partindo uma a uma, ou em pequenos grupos, tremulando de alegria na mão de El Carcelero – adejando, diria-se –, até que eu ficasse sozinha novamente no cárcere escuro e fétido. Imaginem, caras irmãs, imaginem o que é passar anos e anos em companhia apenas dos próprios pensamentos, monologando aflitivamente, ser um papel vazio, sem palavras, sem números, sem identidade, enfim. Tive sérios problemas mentais, esquizofrenia, claustrofobia, longos períodos – necessários – de catatonia, e passei a desejar a morte, desejar que La Cucaracha tivesse terminado seu servicinho sujo. Sonhava com aquele clássico e pavoroso fim: ser lentamente queimada na chama de uma vela, contorcendo-me até que restasse apenas um cadáver carbonizado. Por isso, minhas irmãs, vocês são afortunadas. Talvez um dia vocês, onde minha história pouco a pouco se decanta, sejam célebres. Daqui a um ou alguns séculos pode ser que vocês, os originais desse conto, sejam relíquias expostas num museu, reproduzidas aos milhões pelos quatro cantos do mundo.

 

Bem, mas ali estava eu, só, com a mente vazia, uma velha vegetante, quando a gaveta, rangendo muito, abriu-se pesadamente. Mas não foi depositada mais uma ou meia resma. Foi uma mão áspera quem entrou no aposento junto com a luz que o inundou, como um arqueólogo que enfim descobre a câmara mortuária do faraó. Ao deparar-se comigo, recuou assustada. Voltou a aproximar-se, cautelosa, examinou-me um pouco e me puxou para fora. Envolveram-me a luz intensa, agradável, e o ar fresco do mundo externo, no qual pairou, brilhando, o pó que me cobria. A claridade me cegou, mas eu não dancei como as folhas jovens, que mais pareciam cortinas de cetim, pois todos aqueles anos de cativeiro tinham-me deixado entrevada. Veio uma brisa suave, levando de minha face detritos acumulados – se vocês me permitem a hipérbole – durante séculos. Quase de imediato comecei a sonhar, imaginar-me como parte de um capítulo, de um prefácio, ou como uma carta de amor. Disso vocês podem depreender em que medida nós, mesmo depois de velhos, podemos ser insensatos. Ser um esboço ou rascunho, de toda forma, já não me desagradaria.

 

Fui colocada sobre uma mesa e quando El Carcelero se debruçou sobre mim, olhamo-nos de frente. Tive um choque. Seus cabelos estavam encanecidos, seus olhos rajados, as íris encobertas pela caligem. Os sorrisos e os prantos haviam se fossilizado em seu rosto sob a forma de rugas. Seu corpo minguara no fogo lento do tempo. Ficamos ali, eu e El Carcelero, calados um diante do outro. Talvez não tenha demorado muito, mas eu mal podia suportar a ansiedade. Notei que no seu semblante estampava-se uma vasta e desalentada angústia. Compadeci-me intensamente daquele homem velho, e demorei a perceber as lágrimas que aos poucos se formavam – e podiam traspassar-me como espadas. Antes disso, entretanto, ele enxugou os olhos com os nós grossos dos dedos e voltou a fitar-me. El Carcelero tomou da caneta-tinteiro – essa sim permanecera jovem, conservara a vividez de seu negro-e-dourado, talvez depois de muitas gerações de cargas –, e percebi que suas mãos estavam cobertas de manchas senis, como eu. Lentamente, como se hesitasse, desceu-a sobre mim, traçando a partir de meu canto superior esquerdo as seguintes palavras:

 

 

De perfil és um fio,

de frente face vazia,

ao nível dos olhos,

como agora te olho

caído sobre ti,

és árida, pálida planície,

onde atiro minhas sementes

como um camponês demente,

ou algum nômade bisonho

que espera cultivar no deserto

uma floresta de sonhos

em que se possa caminhar desperto

e que mesmo examinada de perto

não revele sua ilusão

 

 

Eu experimentara uma sensação desconhecida enquanto a ponta aguçada da caneta me premia, uma dor que era na verdade um prazer intenso demais, quase intolerável, que fez meu corpo todo estremecer a ponto de quase rasgar-se, e o som rascante do atrito entre nós era como um gemido intermitente. Eu, La Momia, estava tendo um orgasmo, meu primeiro orgasmo, na velhice. Só ao retornar do transe em meio a uma pausa prolongada na escrita me dei conta de que estava me tornando um poema, um poema sobre mim! Ao menos sobre a minha classe, meu gênero, que tanto me rejeitara. Senti-me reconciliada. Apenas aguardava que o concluísse, cravando o ponto final, e assinasse o seu nome, que eu agora estava disposta a perdoar.

 

Em meio à felicidade, entretanto, notei que El Carcelero me olhava de um modo estranho, de um modo como eu nunca fora olhada. Ele estava relendo as palavras que me tatuavam, examinando-as uma a uma, revirando-as em sua mente como se revira uma pedra na mão. Sorriu amargamente, e depois seu rosto se desfigurou em fúria. Senti uma pontada no coração ante o olhar que me desferiu, pois já o conhecia. Então eu soube que ele nunca tinha conseguido, que era um escritor obscuro, macerado pelo anonimato, pelo desdém, pela condescendência. O escritor é um conspirador solitário, e quando sua conspiração se frustra, não há onde encontrar consolo. Assim foi que a mesma mão que me libertara do cativeiro me ergueu com força, amassando-me e machucando-me. 

 

Canalha! Canalha! Demoraste todos esses anos para me dar uma alma e irás tomá-la num segundo?! – gritei, roufenha, adivinhando.

 

Eu não sei quem sou, como posso te dar uma alma?! – retrucou ele.


Por um instante vi El Carcelero com os olhos de La Cucaracha na ocasião em que ela entrara chiando como um demônio, moribunda, e no seguinte experimentei uma dor pior que a causada pela mais cruel das baratas, uma dor semelhante à do condenado quando é cortado da genitália à garganta pelo instrumento do verdugo. Meu corpo produziu um som terrível ao ser dilacerado. Notem a violência que há nesse verbo: rasgar. E a dor se repetiu várias vezes, dividindo-se mas multiplicando-se como os pães do milagre, antes que El Carcelero atirasse meus mil pedaços pela janela e eles flutuassem no ar da noite, espalhando-se em desesperada fuga, cambalhoteando aterrorizados. Ao longe deviam parecer uma revoada de pequenas borboletas. Caíram uns distantes dos outros e assim, solitários, transidos de frio, jazeram, até que uma chuva os dissolveu e a terra os tragou, fazendo de mim esse puro espírito extraviado.

 
 
 
 
 
 
João Paulo Parisio nasceu no Recife (1982) e vive em Jaboatão dos Guararapes, Pernambuco. É autor de dois livros de contos, outro de poemas e de uma peça de teatro, todos inéditos. Tem textos publicados em antologias e jornais literários, entre os quais o Rascunho, de Curitiba, e o Pernambuco. Já esteve entre os vencedores de alguns concursos literários, incluídos o Prêmio Cidade de Belo Horizonte de Dramaturgia, o Concurso Nacional de Contos Cidade de Araçatuba, o Prêmio Cataratas e o Concurso Comemorativo do Sesquicentenário da Biblioteca Pública de Pernambuco. No blog Fábulas Árduas – fabulasarduas.blogspot.com.br –, reúne alguns de seus contos mais antigos. Trabalha atualmente como agente administrativo na Prefeitura do Recife.
 
 
 

Written by passeipostei

28/04/2013 at 14:09

Um conto de Adélia Prado

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Sem enfeite nenhum

 

 

 

A mãe era desse jeito: só ia em missa das cinco, por causa de os gatos no escuro serem pardos. Cinema, só uma vez, quando passou os Milagres do padre Antônio em Urucânia. Desde aí, falava sempre, excitada nos olhos, apressada no cacoete dela de enrolar um cacho de cabelo: se eu fosse lá, quem sabe?

Sofria palpitação e tonteira, lembro dela caindo na beira do tanque, o vulto dobrado em arco, gente afobada em volta, cheiro de alcanfor.

Quando comecei a empinar as blusas com o estufadinho dos peitos, o pai chegou pra almoçar, estudando terreno, e anunciou com a voz que fazia nessas ocasiões, meio saliente: companheiro meu tá vendendo um relogim que é uma gracinha, pulseirinha de crom’, danado de bom pra do Carmo. Ela foi logo emendando: tristeza, relógio de pulso e vestido de bolér. Nem bolero ela falou direito de tanta antipatia. Foi água na fervura minha e do pai. Vivia repetindo que era graça de Deus se a gente fosse tudo pra um convento e várias vezes por dia era isto: meu Jesus, misericórdia… A senhora tá triste, mãe? eu falava. Não, tou só pedindo a Deus pra ter dó de nós.

Tinha muito medo da morte repentina e pra se livrar dela, fazia as nove primeiras sextas-feiras, emendadas. De defunto não tinha medo, só de gente viva, conforme dizia. Agora, da perdição eterna, tinha horror, pra ela e pros outros.

Quando a Ricardina começou a morrer, no beco atrás da nossa casa, ela me chamou com a voz alterada: vai lá, a Ricardina tá morrendo, coitada, que Deus perdoe ela, corre lá, quem sabe ainda dá tempo de chamar o padre, falava de arranco, querendo chorar, apavorada: que Deus perdoe ela, ficou falando sem coragem de aluir do lugar.

Mas a Ricardina era de impressionar mesmo, imagina que falou pra mãe, uma vez, que não podia ver nem cueca de homem que ela ficava doida. Foi mais por isso que ela ficou daquele jeito, rezando pra salvação da alma da Ricardina.

Era a mulher mais difícil a mãe. Difícil, assim, de ser agradada. Gostava que eu tirasse só dez e primeiro lugar. Pra essas coisas não poupava, era pasta de primeira, caixa com doze lápis e uniforme mandado plissar. Acho mesmo que meia razão ela teve no caso do relógio, luxo bobo, pra quem só tinha um vestido de sair.

Rodeava a gente estudar e um dia falou abrupto, por causa do esforço de vencer a vergonha: me dá seus lápis de cor. Foi falando e colorindo laranjado, uma rosa geométrica: cê põe muita força no lápis, se eu tivesse seu tempo, ninguém na escola me passava, inteligência não é estudar, por exemplo falar você em vez de cê, é tão mais bonito, é só acostumar. Quando o coração da gente dispara e a gente fala cortado, era desse jeito que tava a voz da mãe.

Achava estudo a coisa mais fina e inteligente era mesmo, demais até, pensava com a maior rapidez. Gostava de ler de noite, em voz alta, com tia Santa, os livros da Pia Biblioteca, e de um não esqueci, pois ela insistia com gosto no titulo dele, em latim: Máguina pecatrís. Falava era antusiasmo e nunca tive coragem de corrigir, porque toda vez que tava muito alegre, feito naquela hora, desenhando, feito no dia de noite, o pai fazendo serão, ela falou: coitado, até essa hora no serviço pesado.

Não estava gostando nem um pouquinho do desenho, mas nem que eu falava. Com tanta satisfação ela passava o lápis, que eu fiquei foi aflita, como sempre que uma coisa boa acontecia. Bom também era ver ela passando creme Marsílea no rosto e Antissardina n° 3, se sacudindo de rir depois, com a cara toda empolada. Sua mãe é bonita, me falaram na escola. E era mesmo, o olho meio verde.

Tinha um vestido de seda branco e preto e um mantô cinzentado que ela gostava demais. Dia ruim foi quando o pai entestou de dar um par de sapato pra ela. Foi três vezes na loja e ela botando defeito, achando o modelo jeca, a cor regalada, achando aquilo uma desgraça e que o pai tinha era umas bobagens. Foi até ele enfezar e arrebentar com o trem, de tanta raiva e mágoa.

Mas sapato é sapato, pior foi com o crucifixo. O pai, voltando de cumprir promessa em Congonhas do Campo, trouxe de presente pra ela um crucifixo torneadinho, o cordão de pendurar, com bambolim nas pontas, a maior gracinha. Ela desembrulhou e falou assim: bonito, mas eu preferia mais se fosse uma cruz simples, sem enfeite nenhum.

Morreu sem fazer trinta e cinco anos, da morte mais agoniada, encomendando com a maior coragem: a oração dos agonizantes, reza aí pra mim, gente.

Fiquei hipnotizada, olhando a mãe. Já no caixão, tinha a cara severa de quem sente dor forte, igualzinho no dia que o João Antônio nasceu. Entrei no quarto querendo festejar e falei sem graça: a cara da senhora, parece que tá com raiva, mãe.

 

O Senhor te abençoe e te guarde,

Volva a ti o Seu Rosto e se compadeça de ti,

O Senhor te dê a Paz.

 

Esta é a bênção de São Francisco, que foi abrandando o rosto dela, descansando, descansando, até como ficou, quase entusiasmado.

Era raiva não. Era marca de dor.

 

Do livro  Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século, organizado por Ítalo Moriconi, Editora Objetiva.

 

 

Written by passeipostei

24/03/2013 at 19:17

Publicado em Contos

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