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Revendo o esplendor

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catedral

 

 

O gigantesco aeroporto de Brasília é coisa para maratonista. A gente desembarca e anda léguas para pegar as malas. O lugar foi reformado para receber os jogos da Copa de 2014 e as Olimpíadas 2016. Acho que os engenheiros responsáveis pelo novo aeroporto pensaram que todo viajante é atleta. Para quem atravessa o terminal para pegar as malas, seria justo no final receber uma medalhinha de cortesia com as frases “Welcome to Brasília. Não procure entender. Apenas sinta a cidade.”

Estive por aqui duas vezes no século passado quando a capital do país não era a metrópole nervosa de hoje. Dizem que das cidades-satélites – agora transformadas em bairros – para o Plano Piloto desenhado por Oscar Niemeyer, nos horários de maior movimento a pessoa gasta quase duas horas dentro de um carro. Os camelôs também invadiram Brasília. Rapazes e moças saem das tocas à noite e alugam seus corpinhos nas quadras do centro. Igrejas evangélicas em tudo que é canto – até encontrei uma vitrine cheia de óleos milagrosos, oh glória.  Brasília, que não era Brasil, mas sim algo abstrato, agora é.

Clarice Lispector escreveu dois textos comparativos sobre suas idas à capital do país. Uma das idas foi logo que a inauguraram e a outra na década de 1970. A cidade projetada e seus grandes vazios – isso há quase sessenta anos – induziu à Clarice um olhar místico-alucinógeno, personagens extraterrestres e tentativas de descrever a dura poesia em forma de concreto. Na primeira vez que estive aqui – um adolescente atormentado e míope –  escrevi um poema dizendo que, em formato de avião, Brasília quer voar. Mas hoje eu me pergunto: para onde?

Como é final de ano, digamos que oitenta por cento dos que vivem aqui já debandaram. Brasília tem o maior número de funcionários públicos do país por metro quadrado. Em época de recesso o povo some, senão enlouquece. Ou já são loucos por só terem shopping como opção de diversão? Desde a sua inauguração os gestores deixaram o Distrito Federal à margem da agenda cultural do Brasil. Soube que o belo Teatro Nacional está há cinco anos fechado. Não vi projetos de incentivo à cultura popular e quando um show de turnê passa por aqui os ingressos esfaqueiam o bolso, mas quem pode paga sorrindo.

Do décimo quinto andar vejo o cerrado que virou concreto. É como uma alucinação entremeada pelo característico barro vermelho e ipês floridos. Diante da catedral a gente tem vontade de se ajoelhar até mesmo do lado de fora. A fálica antena de TV me faz lembrar que de lá pessoas já se jogaram – de tédio ou de dor? – e hoje as filas para subir ao seu mirante seguem em ritmo ansioso de selfies.

O que Brasília quer de nós? Algumas cidades querem que a gente gaste todo o nosso dinheiro; outras, que a gente se divirta; outras, que a gente apenas se deslumbre e outras querem que aprendamos com alguma perda ou decepção. Mas Brasília não quer nada. Eu, que vivo com a sensibilidade bilhonesimamente espalhada por poros e pontas dedos, sei que Brasília é uma esfinge que pouco se importa com homens e ratos. Ela olha longe para onde ninguém pode ver.

Brasília é Shirley Bassey cantando I get a kick out of you, é um jazz de Shostakovitch, é uma guitarra solitária mas é também música sertaneja que impera absoluta nos ônibus e nos automóveis que cortam a cidade. Querem corroer o concreto tombado com acordes de Marília Mendonça e Bruno e Marrone. Mas espero que a capital federal sobreviva. Que sobreviva à carrocracia, à falta de estacionamento, à falta de um violino na calçada, à falta de um cavalo correndo desembestado na W3 às quatro horas da tarde. Porque todo o transgressivo em Brasília é chapa branca.

Não sei explicar, mas Brasília é debochada. Os ladrões do Congresso estupram tanto nossa dignidade que Brasília tornou-se uma senhora cínica. É como alguém apertando o nosso pescoço alegremente dizendo: não era isso que você queria?

Dividida em imutáveis castas, a cidade criada por JK tem um lado B, porque senão jamais seria uma cidade, mas sim um cenário de ficção. No Setor Sudoeste um ser ingênuo (eufemismo) poderá pagar R$ 74 por uma pequena pizza individual e achar normal, mas num lugar chamado Feira dos Goianos uma sacoleira pode pular de alegria e deixar todos os seus clientes na moda com precinhos camaradas. Vi grafites em Brasília. Vi sujeira. Vi mansões. Vi uma moça com um penteado tão fofo que parecia algodão doce e uma malha azul e branca cobrindo todo o seu corpo parecendo um mar bípede.

O que mais vi? Ah sim. Uma criança no café da manhã perguntando: mamãe, o que é isso? A genitora não sabia explicar, nem eu, meu Deus. Parecia uma paçoca ou um projeto de panqueca. Mas enquanto eu tomava suco de laranja a música ambiente solta uma canção tipo recordar é viver. Sabem há quantas décadas eu não escutava essa música? Bem, acho que Brasília sabia. Foi trilha sonora de uma história que vivi aqui. E que agora, juntando tudo, entrou no pacote tombado pela Unesco.

Depois volto para a varanda do flat, seguro na murada, sigo uma seta invisível. Antes de entrar no avião, rezei: me deem uma resposta. Agora, nesta manhã de Brasília, que se alterna em calor e chuva, a austera dama de rosto de concreto lentamente vira o perfil.  E sussurra algo bem baixinho.

Entendi, Brasília, entendi. Me perfumo de lavanda, recordo cenas de um filme chamado O sonho não acabou, lembro uma certa noite na Asa Norte, pego o elevador de serviço, um funcionário assustado me diz bom dia. Olho para o céu e me vem a frase de Clarice em sua crônica: Brasília é esplendor. Estou assustadíssima.

Eu também estou, minha senhora. Então segure minha mão e vamos juntos nesse labirinto.

 

Raimundo de Moraes

 

 

Foto: interior da Catedral de Brasília. Imagem da internet.
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Written by passeipostei

02/01/2018 at 20:42

Virar mulher

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R. Mineiro

 

 

 

No carnaval de 1993, me maquiei cedo na frente do espelho. Batom vermelho, blush, rímel, um top básico, uma saia colorida. Nunca me vestira daquela maneira. De alguma forma aquela transgressão me completava.

As exclusividades femininas agora minhas. Um último ajuste nos brincos postiços e a certeza: estava lindo. Silencioso, caminhei para a porta da rua.

Aos treze anos, fui surpreendido por meu pai que me proibiu o travestismo. Passei o sábado de Zé Pereira trancado em casa, assistindo na TV a meus amigos brincando de ser mulher.

Alguns anos antes, acompanhei minha irmã em sua primeira aula de ballet. Fiquei encantado. Os passos, o ritmo, as cores do ambiente. Ainda hoje, posso recordar a música executada na classe. Na volta para casa disse a minha mãe o quanto gostara das bailarinas. No dia seguinte estava matriculado na escolinha de futebol.

Assim, desde novo, ia sendo separado do mundo feminino como se me cortassem, cotidianamente, um cordão umbilical. Por isto, seguia olhando para meu umbigo e enxergando através dele a tatuagem que carregava comigo. No meu ponto de equilíbrio, um rastro feminino.

E de tanto olhar para aquela cicatriz materna, descobri uma menina a crescer dentro de mim. Foi crescendo, crescendo e ameaçou explodir em hérnia. Minhas entranhas querendo sair, num inútil esforço de me virar ao avesso. Meu umbigo enorme, meus pais mandaram tirá-lo. Após a cirurgia, acordei com a dolorosa sensação de minha primeira castração feminina.

Esquisito este desejo de ser mulher. Esta palavra estranha que lembra verbos, correr, bater, beber. Substantivo grávido de sentidos e existência. A sentença: ser mulher, sempre me pareceu redundância.

Na busca desta condição, que também é uma ação, me encontrei em muitos adjetivos e superei outras preposições. Casei-me com uma bailarina e nos engravidamos de uma pequena atrevida. Todos sabem, ou deveriam saber, que é o gameta masculino quem determina o gênero das próximas gerações. O cromossomo XY é a marca genética de nossa máscula ambiguidade.

No nascimento de minha filha, finalmente cumpri a secreta profecia. Aquele pequeno mundo, determinado por meu código contraditório, teve a ventura de ser feminino. E agora, parte de mim vive neste mundo como fêmea. Penso nas alegrias, nas enciclopédias, nas fogueiras e pedras.

Apesar do penar, sinto-me completo, reconstituído com uma parte amputada. Orgulhoso, desfilo com a cria pelas ruas. As pessoas se espantam com um homem cuidando de um neném, ainda mais uma menina. As moças distribuem agradáveis olhares de curiosidade e admiração. Os senhores, em geral, de desconfiança.

Alguém me disse uma vez que a cena de um pai afagando seus filhos representa a esperança no mundo. É difícil ser o sentimento de um mundo sem sentimentos. Mas não procuram facilidades aqueles que arriscam virar mulher.

A paternidade feminina é a transgressão carnavalesca que não foi cumprida, é a sensação do palco para uma bailarina. Depois de trocar a fralda de minha filha, ela me olha com aquela cara séria de quem vai dizer algo de grande importância e balbucia:

– Mamãe!
 
 
 

hermafrodita

Written by passeipostei

08/12/2013 at 13:18

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As reclusas de Chawton e Amherst

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por Raimundo de Moraes

 

 

Semana passada assisti na TV Emma, filme realizado por Douglas McGrath (conhecido também como roteirista), baseado na obra homônima de Jane Austen. Este Emma que eu vi, estrelado por Gwyneth Paltrow, é mais uma das dezenas de adaptações dos livros de Miss Austen, que está no Olimpo dos grandes escritores de língua inglesa. Orgulho e Preconceito, por exemplo, já teve um novo remake feito em 2005; se bem que a BBC de Londres, dez anos antes, produziu uma impecável minissérie baseada no livro. Não vi, só li as resenhas, mas pretendo encontrá-la na web ou em DVD.

Desde que tomei conhecimento de Emily Dickinson nunca consegui dissociá-la da imagem de Jane Austen. Por quê? Uma era romancista, a outra era poeta. Uma inglesa, outra americana. As duas não foram contemporâneas. Quando Emily nasceu (1817) Jane já era só ossos na catedral de Winchester.

Li Orgulho e Preconceito e Razão e Sensibilidade na pré-história da minha vida. Depois, adulto, quando li os poemas de Emily, a comparação foi inevitável: tanto a americana como a inglesa viveram reclusas em suas casas, nunca casaram e o ponto central de suas existências foi a Literatura.

Ambas tiveram lá suas esquisitices e seus mistérios. Emily vestia-se sempre de branco, personagem etérea passeando nos jardins de Amherst. Em vida, nunca publicou um livro sequer, mas na contagem geral de uma incessante produção, sua obra alcançou um montante de 1.800 poemas. Jane Austen teve uma carreira diversa: seus romances fizeram muito sucesso antes de sua morte.

Alguns historiadores dizem que era um comportamento normal as mulheres antes da Revolução Industrial viverem isoladas, apartadas da vida em sociedade. Eu digo que é preciso acrescentar algumas notórias exceções nessa questão. No século XVIII Madame de Stäel adorava um bom sarau literário e foi um dos personagens mais interessantes do Iluminismo francês. George Sand também era chegada a um agito cultural e a uma vida aventuresca (dizem que Chopin não aguentou tanta “energia”). Aqui no Brasil, bem antes de João VI chegar com sua corte, a poeta Ângela do Amaral Rangel já participava da Academia dos Seletos no Rio de Janeiro. E em Lisboa, a Marquesa de Alorna promovia grandes debates literários em sua casa – Bocage foi um dos seus frequentadores.

Talvez se tivessem nascido em grandes cidades, tanto Jane como Emily não houvessem optado pelo autoexílio em seus respectivos “santuários”. Nas poucas vezes que Jane se ausentou de Chawton foi para cuidar da saúde. Deduz-se que ela sofria do Mal de Addison. Alguns dos sintomas são náuseas, fraqueza muscular, anorexia, diarreia e vômito. Imaginem como a coitada entregou sua alma a Deus. Quanto a Emily, dizem que quando chegava uma visita à casa dos seus pais, ela se escondia. O contato com os outros seres humanos lhe parecia ser um fardo. Daí o apelido de A Grande Reclusa.

As obras dessas duas mulheres continuam a suscitar as mais variadas interpretações. Mas o que importa é que o reconhecimento não veio de cima para baixo (crítica-leitor) e sim de baixo pra cima (leitor-crítica). Emily fazia circular seus poemas entre amigos e familiares, anexados às vezes nas milhares de cartas que escreveu. Jane Austen, apesar do grande sucesso de Orgulho e Preconceito (1797) não era muito bem vista pelos editores britânicos. Porém como os editores são movidos pelo lucro (livro é objeto de comercialização, meus caros. Mecenato agora é um verbete no dicionário) renderam-se à obra da reclusa de Chawton. Hoje Jane é considerada a precursora da moderna literatura inglesa.

Ultrapassando todos os limites que poderiam torná-las anônimas em seus países e no mundo – sem a bênção da crítica quando ainda estavam vivas e produzindo, afastadas dos grandes círculos culturais, morando em pequenas cidades no interior – Jane e Emily tornaram-se referência pelo talento que extrapolou fronteiras. Elas, junto com Virginia Woolf, estão na lista de Harold Bloom em seu Cânone Ocidental, uma seleção muito pessoal de obras e autores europeus e sul/norte-americanos. No seu livro, ele esmiúça literária e historicamente o último livro de Jane (Persuasão). Sobre a obra de Emily Dickinson ele faz a seguinte afirmação:

Tirando Shakeaspeare, é ela que manifesta mais originalidade cognitiva do que qualquer outro poeta ocidental depois de Dante.

Sem buscar Beatriz, os poemas de Emily revelam seus próprios infernos, purgatórios e céus. E um permanente deslumbramento com a natureza.

 

 

À esquerda: a única imagem que ficou de Jane Austen, um retrato feito por sua irmã Cassandra.   À direita, A Bela de Amherst ou A Grande Reclusa Emily Dickinson.

 

 

Texto publicado em Cronistas Pernambucanos, Org. Antonio Campos e Luiz Carlos Monteiro, Ed. Carpe Diem, 2010.

 

Uma crônica de Rubem Braga

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O MISTÉRIO DA POESIA

 

Não sei o nome desse poeta, acho que boliviano; apenas lhe conheço o poema, ensinado por um amigo. E só guardei os primeiros versos: Trabajar era Bueno em el Sur. Cortar los árboles hacer canoas de los troncos.
E tendo guardado esses dois versos tão simples, aqui me debruço ainda uma vez sobre o mistério da poesia.
O poema era grande, mas foram essas palavras que me emocionaram. Lembro-me delas às vezes, numa viagem, quando estou aborrecido, tenho notado que as murmurro para mim mesmo, de vez em quando, nesses momentos de tédio urbano. E elas produzem em mim uma espécie de consolo e de saudade não sei de que.
Lembrei-me agora mesmo, no instante em que abria máquina para trabalhar nessa coisa vã e cansativa que é fazer crônica.
De onde vem o efeito poético? É fácil dizer que vem do sentido dos versos; mas não apenas do sentido. Se ele dissesse: Era Bueno trabajar em el Sur , não creio que o poema pudesse me impressionar. Se no lugar de usar o infinitivo do verbo cortar e do verbo hacer usasse o passado, creio que isso enfraqueceria tudo. Penso no ritmo: ele sozinho não dá para explicar nada. Além disso, as palavras usadas são, rigorosamente, das mais banais da língua. 
Reparem que tudo está dito com elementos mais simples: trabajar, era Bueno, Sur, cortar, árboles, hacer canoas, troncos.
Isso me lembra um dos maiores versos de Camões, todo ele também com as palavras mais corriqueira de nossa língua: “A grande dor das coisas que passaram”.
Talvez o que mais me impressione seja mesmo isso: essa faculdade de dar um sentido solene e alto às palavras de todo dia. Nesse poema sul-americano a ideia da canoa é também motivo de emoção.
Não há coisas mais simples e primitiva que uma canoa feita de tronco de árvore; e acontece que muitas vezes a canoa é de grande beleza plástica. E de repente me ocorre que talvez esses versos me emocionem particularmente por causa de uma infância de beira-rio e de beira-mar. Mas não pode ser: o principal sentido dos versos é o do trabalho; um trabalho que era bom não essa “necessidade aborrecida” de hoje. Desejo de fazer alguma coisa simples, honrada e bela, e imaginar que já se fez.
Fala-se muito em mistério poético; e não faltam poetas que procurem esse mistério enunciando coisas obscuras, o que dá margem a muito equívoco e muita bobagem. Se na verdade existe muita poesia e muita carga de emoção em certos versos sem um sentido claro, isso não quer dizer que, turvando um pouco as águas, elas fiquem profundas…

 

Crônica do livro A traição das elegantes. Rubem Braga (1913-1990) é considerado um dos maiores cronistas do Brasil. Outros  livros publicados: Ai de ti, Copacabana!, Uma fada no front, Recado de primavera.  

 

 

 

 

 

 

Written by passeipostei

13/10/2011 at 9:52

Publicado em Crônicas

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