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literatura ou quase

Archive for the ‘Não sei direito o que é’ Category

Um texto de Jorge de Lima

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O GRANDE DESASTRE AÉREO DE ONTEM

 

 

para Cândido Portinari

 

Vejo sangue no ar, vejo o piloto que levava uma flor para a noiva, abraçado com a hélice. E o violinista em que a morte acentuou a palidez, despenhar-se com sua cabeleira negra e seu estradivárius. Há mãos e pernas de dançarinas arremessadas na explosão. Corpos irreconhecíveis identificados pelo Grande Reconhecedor. Vejo sangue no ar, vejo chuva de sangue caindo nas nuvens batizadas pelo sangue dos poetas mártires. Vejo a nadadora belíssima, no seu último salto de banhista, mais rápida porque vem sem vida. Vejo três meninas caindo rápidas, enfunadas, como se dançassem ainda. E vejo a louca abraçada ao ramalhete de rosas que ela pensou ser o paraquedas, e a prima-dona com a longa cauda de lantejoulas riscando o céu como um cometa. E o sino que ia para uma capela do oeste, vir dobrando finados pelos pobres mortos. Presumo que a moça adormecida na cabine ainda vem dormindo, tão tranquila e cega! Ó amigos, o paralítico vem com extrema rapidez, vem como uma estrela cadente, vem com as pernas do vento. Chove sangue sobre as nuvens de Deus. E há poetas míopes que pensam que é o arrebol.

 

Pavel Simon, Airplane over Prague

 

 

Jorge de Lima – União dos Palmares/AL, 1893 – Rio de Janeiro/RJ, 1953 – foi poeta, romancista, médico, político e ensaísta. Escreveu: Tempo e Eternidade (1935),  A mulher obscura (1939), Invenção de Orfeu (1952), Guerra dentro do beco (1950), entre outros.

 

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Written by passeipostei

07/10/2012 at 17:43

Mea culpa

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Matei porque, mesmo surdo, escutei vozes.
Matei porque meus calos estavam me matando.
Matei porque dei o cu e gostei.
Matei para matar o tempo.
Matei porque o pescoço dela me chamava.
Matei porque ele não sugava meu leite.
Matei por distração.
Matei porque sou distraída.
Matei porque ela tirou de mim o buquê da noiva.
Matei pra curtirem no Facebook.
Me matei porque detesto filas. No inferno também tem fila.
Matei porque isso nunca sai de moda.
Matei por causa da oficina literária.
Matei porque o personagem virou a página.
Jura que matei? Eu não sabia.

 

aymmar rodriguéz

 

 

Written by passeipostei

29/01/2012 at 17:15

Adília Lopes

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Nunca fodi. Mas não me importo de morrer sem ter fodido. Apaixonei-me. E ninguém por quem eu me tenha apaixonado se apaixonou por mim. Acho horrível uma pessoa foder sem estar apaixonada. Acho horrível uma pessoa nunca ter se apaixonado. Acho que é o pior que pode acontecer a uma pessoa. Não é nunca ninguém ter se apaixonado por nós. É tão horrível alguém apaixonar-se por nós e nós não podermos corresponder. As paixões desencontradas são como as cabeças trocadas.

 *

Posso morrer porque amei e porque fui amada. Gostei de homens, de mulheres, de velhas (de velhos não), de bebés, de bichos, de plantas, de casas, de filmes, de concertos, de quadros, de teorias, de jogos, de pastéis de nata, de jesuítas, de russos, de hamburguers, de Paris e de Londres.  Nunca fui a Nova York e gostava de ir, mas não me importo de morrer sem ter ido. Também nunca tive um orgasmo, mas posso morrer sem nunca ter tido um orgasmo. Não me arrependo de nada. É claro que Nova York não se compara com um orgasmo. Um orgasmo é muito mais importante.

 *

Para foder, nestes tempos que correm, parece que é preciso um escafandro. As pessoas pensam muito em foder. E sofrem muito quando não fodem. Quem não pensa em foder está fodido. Mas as pessoas fodem e não são felizes.

 *

O deserto está perto. Sempre. Mas o deserto é fértil.

 *

Pateta, patética, peripatética: eu.

 

Do livro Irmã Barata, Irmã Batata (2000).  Adília Lopes – pseudônimo de Maria José da Silva Viana Fidalgo de Oliveira – é uma escritora e poeta portuguesa. Alguns livros publicados: A Pão e Água de Colónia,  O Marquês de Chamilly,  O Decote da Dama de Espadas,  Clube da Poetisa Morta,  Florbela Espanca espanca,  A Bela Acordada.

Written by passeipostei

01/08/2011 at 16:19

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Lição de anatomia

 

O médico legista terminou de costurar o estômago da adolescente. Soube da história: matou-se de tanto amar.

Tirando as luvas, olhando para o legista-assistente:

– Essa aí era delicada demais para ser feliz.

 

Raimundo de Moraes

 

 

 

Written by passeipostei

12/07/2011 at 14:37

TÔ SÓ

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    Vamo brincá de ficá bestando e fazê um cafuné no outro e sonhá que a gente enricô e fomos todos morar nos Alpes Suíços e tamo lá só enchendo a cara e só zoiando? Vamo brincá que o Brasil deu certo e que todo mundo tá mijando a céu aberto, num festival de povão e dotô? Vamo brincá que a peste passô, que o HIV foi bombardeado com beagacês, e que tá todo mundo de novo namorando? Vamo brincá de morrê, porque a gente não morre mais e tamo sentindo saudade até de adoecê? E há escola e comida pra todos e há dentes na boca das gentes e dentes a mais, até nos pentes? E que os humanos não comem mais os animais, e há leões lambendo os pés dos bebês e leoas babás? E que a alma é de uma terceira matéria, uma quântica quimera, e alguém lá no céu descobriu que a gente não vai mais pro beleléu? E que não há mais carros, só asas e barcos, e que a poesia viceja e grassa como grama (como diz o abade), e é porreta ser poeta no Planeta? Vamo brincá

      de teta

      de azul

      de berimbau

      de doutora em letras?

      E de luar? Que é aquilo de vestir um véu todo irisado e rodar, rodar…

      Vamo brincá de pinel? Que é isso de ficá loco e cortá a garganta dos otro?

      Vamo brincá de ninho? E de poesia de amor?

      nave

      ave

      moinho

      e tudo mais serei

      para que seja leve

      meu passo

      em vosso caminho.

      Vamo brincá de autista? Que é isso de se fechá no mundão de gente e nunca mais ser cronista? Bom-dia, leitor. Tô brincando de ilha.

 

Texto de Hilda Hilst publicado no jornal Correio Popular, Campinas, SP. Agosto, 1993.

 

Written by passeipostei

26/06/2011 at 17:30

Publicado em Não sei direito o que é

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FILIGRANAS

 

– Quando aparece notícia de política ele muda logo o canal.

– É mesmo? Por quê?

– Tem o estômago delicado, coitado.

– Juninho, vem cá… Estou preocupado com tanta delicadeza… Seja mais macho, meu filho.

– Pra quê, paizinho? Ser macho man dá muito trabalho. Coçar o saco em público, ir ao estádio ver jogador brigando, inventar que comeu um monte de mulher e ainda ficar sem nada quando a esposa pede o divórcio…

– Huuummm… adoro ver as tortas que Dona Cecília faz.  São tortas sábias…

– Tortas sábias? O que é isso?

– Elas parecem com certas pessoas, delicadas por fora e uma porcaria por dentro…

– Ele é delicadíssimo… Diz que  adora jantar lá em casa à luz de velas, clima de romance…

– Boba. Conheço a peça. Gosta de jantar na tua casa pra não dividir a conta do restaurante.

Guia:

– Vejam: aqui até os homens fazem renda de bilro…

Turista:

– Quanta delicadeza…

Rendeiro:

– Delicadeza, dona? É falta de emprego mermo.

–  Amor, seja delicado comigo, tá?  Hoje só quero que você me xingue, bata minha cabeça na parede, puxe meus cabelos e aperte meu pescocinho.

Raimundo de Moraes

Written by passeipostei

01/06/2011 at 0:35

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        Saudade de um perfume que não encontro mais nas prateleiras, saudade de uma bicicleta verde, saudade da canja que minha avó fazia.

        Estranho.

        Não alimento nostalgias.

        E principalmente numa sexta-feira – isto não é coisa boa.

        Quero lembrar do futuro.

        Viro a ampulheta e fico olhando.

        Esperando a felicidade chegar de novo.  

Raimundo de Moraes

 

 

Written by passeipostei

29/05/2011 at 18:55

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