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Archive for the ‘Para ver e ouvir’ Category

Gula gourmet

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O conto A festa de Babette foi publicado em 1956 e transformado em filme em 1987 – ganhando em seguida o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Foi a segunda adaptação para o cinema de uma obra de Karen Blixen, pseudônimo de Isak Dinesen. Em 1985 Out of Africa foi pra telona sob a direção de Sidney Pollack, estrelado por Meryl Streep, Klaus Maria Bradauer e Robert Redford. A produção – lançada no Brasil com o título Entre dois amores – ganhou sete Oscars, incluindo o de melhor filme e melhor direção.

Não tanto premiado como Out of Africa, A festa de Babette conquistou o coração das plateias no mundo inteiro. O enredo é simples: a fugitiva política Babette sai da França e vai parar numa aldeia da Noruega (no filme, o diretor Gabriel Axel preferiu transferir o enredo para sua terra natal, a Dinamarca). Na aldeia, Babette é acolhida por duas irmãs idosas, tornando-se a discreta cozinheira da casa. E passam-se anos. Até que um dia a cozinheira exilada ganha dez mil francos na loteria. Uma fortuna. Ela muda de vida? Volta para a França? Que nada. Pede permissão às duas velhinhas para realizar um autêntico e refinado jantar francês, com direito a convidar toda a ala geriátrica da aldeia. E este é o ponto alto do filme: a elaboração dos pratos, a degustação, as revelações que vão surgindo.

Ironicamente, a autora de A festa de Babette, Isak Dinesen, não pôde se entregar aos prazeres da mesa em seus últimos anos de vida. Teve que retirar parte do estômago e morreu praticamente subnutrida, pesando apenas trinta e cinco quilos.

 

Raimundo de Moraes

 

 

 
 

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16/03/2015 at 0:37

Os juros de uma dívida

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Cansada pelos rudes trabalhos do dia, Eréndira não teve ânimo para despir-se e se atirou na cama. Pouco depois, o vento de sua desgraça meteu no quarto como uma matilha de cães e derrubou o candelabro contra as cortinas. Ao amanhecer, quando afinal o vento acabou, começaram a cair umas gotas grossas e espaçadas de chuva, que apagaram as últimas brasas e endureceram as cinzas fumegantes da mansão. (…) Quando a avó se convenceu de que muita pouca coisa ficara intacta entre os escombros, olhou a neta com pena sincera. – Minha pobre pequena – suspirou. – Você não terá vida bastante para me pagar este prejuízo.

Assim Gabriel Garcia Márquez anuncia o trágico destino de uma pobre adolescente que é forçada pela avó a peregrinar de povoado em povoado, de deserto em deserto, vendendo seu corpo a quem estiver disposto a se deitar com ela por vinte centavos. O conto – como alguns consideram, novela curta – A incrível e triste história da cândida Eréndira e da sua avó desalmada foi originalmente escrito como roteiro de cinema, mas acabou sendo publicado em 1978 com outras seis narrativas. Em 1983 o brasileiro Ruy Guerra transpôs pras telas a história de Eréndira, convidando sua esposa na época Cláudia Ohana para fazer o principal e a grega Irene Pappás (em excelente interpretação) para viver a avó cafetina. Mas Eréndira já tinha sido mencionada bem antes por Garcia Márquez, no seu livro Cem anos de solidão, numa fala de Aureliano Buendía. Essa, aliás, é uma das características do escritor colombiano, que costumava cruzar personagens e histórias em livros publicados em períodos diversos.

O filme foi realizado numa co-produção entre Alemanha, México e Portugal e teve  indicação de melhor direção no Festival de Cannes de 1984. Aqui no passeipostei, uma das cenas iniciais, quando o presente e o futuro de Eréndira são transformados em cinzas.

 
 

Raimundo de Moraes

 
 

Written by passeipostei

25/06/2014 at 23:24

As charmosas mordidas de Lestat

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Desde que Drácula foi inventado por Bram Stoker, nunca os vampiros tiveram tão em alta, tanto no cinema como no mercado editorial. São vários autores e diretores explorando o filão, mas da recente safra lançada pelo book marketing, nenhum deles chega ao nível da norte-americana Anne Rice, quem em1976 iniciou a publicação de suas Crônicas vampirescas. Segundo Anne, o primeiro livro, Entrevista com o vampiro – que aqui no Brasil teve sua tradução feita por Clarice Lispector – foi uma tentativa para expurgar a dor que sentia pela morte de sua filha. Em 1985 veio o segundo livro, O vampiro Lestat e em 1994 as personagens de Anne ganharam versão para o cinema. O filme Entrevista com o vampiro, dirigido por Neil Jordan e estrelado por Brad Pitt e Tom Cruise, foi um sucesso mundial. Mas, para quem leu os livros de Anne Rice, sabe que na escalação do elenco aconteceram dois grandes deslizes: Tom Cruise não corresponde bem à imagem do Lestat original e colocaram o adulto e viril Antonio Banderas para viver o belo e etéreo Armand, um vampiro adolescente. Os livros de Anne Rice são ricos em referências históricas e um detalhado trabalho de reconstituição de época, além de uma incrível capacidade de tornar verossímil o que é apenas uma lenda. Depois das Crônicas vampirescas ela escreveu a ótima sequência As bruxas Mayfair e após a morte do marido, o poeta Stan Rice, resolveu dedicar-se a outros temas, como anjos e a biografia de Jesus Cristo. Na sequência abaixo, vemos a vampira-menina Claudia – vivida Kirsten Dunst, na época então com doze anos de idade – que se rebela contra o seu cruel destino: ter sido transformada pelos seus pais Lestat e Louis, e viver com uma alma adulta aprisionada para sempre num corpo de criança.

 

Raimundo de Moraes

 

 

 

 

 

 

A festa de Clarissa

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Mrs. Dalloway disse que ela própria iria comprar as flores.

Com essa frase Virginia Woolf abre um dos seus mais famosos romances, publicado em 1925. Talvez a palavra romance não defina a amplitude desse texto de Virginia, que causou um certo espanto entre a crítica e os leitores na época do seu lançamento. Utilizando a técnica do entrelaçamento de flashbacks e o fluxo de consciência – que utilizou com igual maestria em quase toda sua obra – Virginia vai inserindo gradativamente histórias, cenas cotidianas, personagens, sonhos e possibilidades num labirinto que mostra um dia na vida de Clarissa Dalloway, dama da alta sociedade londrina, que irá dar uma festa numa noite de junho de 1923.

A história foi transformada em filme em 1997, com direção da holandesa Marleen Gorris  e estrelada por Vanessa Redgrave, uma das maiores atrizes da Inglaterra e premiada internacionalmente. Aqui no passeipostei uma das cenas do filme, quando Clarissa vai à janela no final da festa e observa os convidados indo embora.

A primeira edição brasileira de Mrs. Dalloway teve a tradução do poeta Mário Quintana.

 

Raimundo de Moraes

 

 

 

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27/01/2013 at 17:58

O adeus de Clark e Marilyn

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A história de Os desajustados é baseada num conto de Arthur Miller. Existe uma versão de que o conto foi escrito em 1956 quando o dramaturgo estava na cidade de Reno, esperando seu divórcio sair para então casar-se com Marilyn Monroe. Quando John Huston decidiu filmar a história Marilyn foi escalada como protagonista feminina. E aqui uma curiosidade: a história que uniu o casal marcou também a separação de ambos no ano que o filme foi lançado, em 1961. Os desajustados é a despedida das telas de Clark Gable e de Marilyn. Ele morreu algumas semanas depois de encerradas as filmagens e ela no ano seguinte, 1962. Foi uma produção difícil de ser concluída, pelas constantes ausências de MM e por causa da vida complicada de Montgomery Clift – já na época apresentando problemas de dependência do álcool e dos barbitúricos. John Huston convidou Miller para fazer também o roteiro do filme e este usou com maestria sua experiência nos palcos: frases curtas, diálogos afiados, um subtexto poderoso que pode ser sentido claramente nos silêncios e nas entrelinhas. Um filme que retrata a solidão, o desespero, os conflitos familiares e a busca de salvação – seja o que isso signifique – transformaram Os desajustados num dos maiores clássicos de Hollywood. Claro, pelos grandes planos adotados pela câmera de John Huston, é um filme para ser visto em tela grande. Mas vale aqui o registro no passeipostei por tão explosivo encontro entre diretor, roteirista e elenco.

 

Raimundo de Moraes

 

Written by passeipostei

15/12/2012 at 12:09

Uma história que lotou os cinemas brasileiros

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A dama do lotação, filme de Neville de Almeida baseado num conto de Nelson Rodrigues, estreou em 1978 e até hoje está entre os dez maiores sucessos de bilheteria do cinema nacional. O elenco traz grandes nomes como Cláudio Marzo, Jorge Dória, Paulo César Pereio e Yara Amaral –  além de Sonia Braga, interpretando a insatisfeita Solange, casada com o traído e revoltado Carlos, na tela vivido pelo então galã Nuno Leal Maia. O filme tem alguns detalhes interessantes. É de uma época que, for falta de recursos técnicos, os atores dublavam suas falas durante a pré-edição. Sonia Braga, além de mostrar os peitos em quase todas as cenas, está também na equipe de produção, junto com o próprio Nelson Rodrigues e o diretor Neville de Almeida. A trilha sonora é assinada por Caetano Veloso com o auxílio luxuoso do grupo baiano A cor do som.

 

 

 

 

Os desejos de um marinheiro

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Querelle de Brest, a célebre novela de Jean Genet, em 2012 completa 65 anos de publicação. Sobre o livro, Sartre o classificou como “o mais extremista de toda a literatura mundial”. Ele foi escrito num intenso período de produção artística de Genet – década de 1940 – quando também surgiram Nossa Senhora das Flores, Pompas Fúnebres e Diário de um ladrão.

Georges Querelle é um marinheiro que perambula pelo cais e por um bordel da cidade francesa de Brest, num permanente ritual de suicídio moral, autoflagelação e busca de si mesmo. Ópio, sexo, crime, sedução, angústia. Querelle é uma obra amoral. E como destino, tornou-se um dos títulos mais importantes do homoerotismo no século 20.
Em 1982 o cineasta alemão Rainer Werner Fassbinder lança nas telas a sua versão da novela de Genet. O filme tornou-se imagem indissociável do livro, numa impressionante reconstituição do seu clima underground e sem impor censuras à intensa carga erótica do enredo. No elenco estão Brad Davis – como o protagonista, e falecido em 1991 – Franco Nero, Jeanne Moreau e Laurent Malet, todos em brilhantes atuações. A música cantada por Jeanne Moreau, Each man kills the things he loves, é de autoria de Peer Raben, baseada num verso de Oscar Wilde: todo homem mata aquilo que ama.

Aqui no passeiopostei, uma compilation com algumas cenas do filme.

 

Raimundo de Moraes

 

 

 

Written by passeipostei

29/01/2012 at 18:16

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