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Mi corazón arde por ti

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                                                            Raimundo de Moraes

 

 

 

 

 

Ainda rutilavam
as últimas cinzas
das Fogueres de San Joan
Descabelada em grandes cachos castanhos
gardênias floradas no pátio
entre os olivais de Valência
a Rainha de Copas desceu do castelo                                                     
Nada a deteve
– suas aias lamentavam cruel desatino
Rasgadas as saias
corvos estavam azuis sob a lua cheia
– a Rainha corria
Escutou os lobos que seguiam a trupe de ciganos
e seu grito também era um uivo:
– Juanitaaaaaa…
Depois disso foram duas bocas e um mesmo desejo
duas rainhas e nenhum Rei de Paus

 

 

 

 

 

 

Poema selecionado no I Concurso Internacional Casa de Espanha, edição 2014.
Imagens: azulejos valencianos, séc. XVIII.

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18/01/2015 at 19:06

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Written by passeipostei

24/06/2014 at 20:35

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Poemas de Semíramis

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Sevilha
 

Na Igreja de la Anunciación
rezei para qualquer deus
Barroco ou pagão
não importa
Quantas mulheres naqueles bancos
curvaram seus lamentos
e murmuraram
a mesma prece
que lá deixei?

Ensaio de dança na ópera, Edgar Degas

Ensaio de dança na ópera, Edgar Degas


 
 

Leitmotiv
 
 

Me aproximo
das bailarinas de Degas
– azúleas, ocres, cinzas
ninfas
Estão ali eternamente vivas
nas molduras douradas
O que dançam? Debussy? Chopin?
Quero um pas de deux
com a Vida
Mas o macabro
são tuas mãos
que tocam
a mesma
música
 
 
 

        Oferenda
         
         

        Como uma esfinge
        apareço ao dia
        renovada em milênios
        : sem memórias
        na gargalhada em que me vejo
        te esqueço um pouco.
        Arde tua ignorância por não saber
        minhas caras
        se me entendes
        então outra cara tenho
        (Como uma esfinge
        faço-me alicerce em segredos.
        Não sou resposta nem começo)
        Quando a tarde me bate em sol
        derramo minha sombra
        e abranjo teus desejos na escuridão
        E só então sozinha
        quando teu corpo
        é fardo cansado de perguntas
        outra vez em silêncio
        ofereço o peito
        para a naja escura

       

      Dançarinas in blue, Edgar Degas

      Dançarinas in blue, Edgar Degas


       
       

      No bar

       
       
      Desfibrando
      os sais da cerveja morna
      evocamos as mortas idas:
      Auta, Florbela, Gilka
      Me olha:
      eu a próxima morta?
       
       
       
       
       
       
       

      Ode nas sombras
       
       
      El silencio redondo de la noche
      sobre el pentagrama
      del infinito
      Garcia Lorca
       
       

      A noite
      escureceu meus cabelos:
      só a esperança
      abre clarões neste caminho
      Para onde leva-me
      a lua nova
      no céu de ônix?
      Diana escondeu sua face
      mas não eu
      Não tenho medo de amar
      Talvez eu seja hoje
      a mendicante louca
      a perder-se entre o vau e as árvores
      Sem cajado. Sem lume
      E se perco o caminho
      encontrarei outras verdades
      E serei tudo. E serei lua

       

       

      Semíramis é um dos personagens literários criados pelo escritor e jornalista Raimundo de Moraes. Os poemas deste post estão no livro Delivrário de Amor e Morte – opus nefandus, que faz parte do Tríade, composto por mais dois livros num mesmo volume: Atirem a pedra, do heterônimo Aymmar Rodriguéz, e Ciclo, assinado pelo próprio Raimundo. Semíramis – artista plástica, poeta e bruxa wicca – é o heterônimo antagônico de Aymmar, tanto no estilo literário quanto na biografia.

       

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04/03/2014 at 19:35

Dois poemas de Frank Bidart

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ESTROFES TERMINANDO COM AS MESMAS DUAS PALAVRAS

 

Primeiro, me senti receoso porque havia entrado
pela porta que dizia Tua Morte.

Nenhuma palavra de valor se
desentranhava de tua morte.

És a ruína cujo braço enlaça a mulher jovem
no bar póstumo, antes de tua morte.

Acima de ti, a grama ainda
está faminta, alimentada por tua morte.

Mata quem matou teu pai, disse tua vida
voltando-se de novo para mim antes de tua morte.

Difícil envelhecer e manter a fome.
Ainda tinhas fome na hora de tua morte.

 

STANZAS ENDING WITH THE SAME TWO WORDS

 

At first I felt shame because I had entered
through the door marked Your Death.

Not a valuable word written
unsteeped in your death.

You are the ruin whose arm encircles the young woman
at the posthumous bar, before your death.

The grass is still hungry
above you, fed by your death.

Kill whatever killed your father, your life
turning to me again said before your death.

Hard to grow old still hungry.
You were still hungry at your death.

 

Prometheus and God, do artista gráfico sérvio Dejano23.

 

 

FOME DO ABSOLUTO


A Terra você sabe é redonda mas parece chata.

Você não pode confiar
nos sentidos.

Você pensa que já viu todo tipo de criatura
porém não

esta criatura.

*

Quando o conheci, sabia que

me havia desmamado de Deus, não
da fome do absoluto. Ó boca

insaciável pronunciando o que é e deve
permanecer inapreensível —

dizendo Você não é finito. Você não é finito.

 


HUNGER FOR THE ABSOLUTE


Earth you know is round but seems flat.

You can’t trust
your senses.

You thought you had seen every variety of creature
but not

this creature.

*


When I met him, I knew I had

weaned myself from God, not
hunger for the absolute. O unquenched

mouth, tonguing what is and must
remain inapprehensible —

saying You are not finite. You are not finite.

 

 

 

Frank Bidart nasceu na Califórnia em 1939. É professor de inglês no Wellesley College, em Boston. Publicou Golden State, The Sacrifice, Star Dust e Metaphysical Dog. Os dois poemas aqui publicados foram traduzidos por Carlos Machado, que mantém o blog Alguma Poesia.


 
 

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08/12/2013 at 17:21

Poemas de Nicolas Behr

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          os mais belos versos

          as facas mais afiadas

          as cordas infalíveis

          os tiros certeiros

          os edifícios altos

 

          aliás, o que

          mata mais?

          a falta

          ou o excesso

          de poesia?

 
 
 
 
 
 
 
 

 

KWANDO EU ENLOUQUECER

 

 

no sinal de trânsito,

maltrapilho, entre os pedintes,

papel e caneta na mão:

escrevendo poemas ou

anotando as placas dos carro?

ou rabiscando um desenho

do batman? Ou te oferecendo

um verso louco

em troca de um abraço?

um trocado?

ou apenas fingindo?

 

te reconheço

não me reconheces

 
 
 
 
 
 

POEMA ANTIAJUDA

 
 
 
 

felizes os fracos de espírito

pois estes têm gurus

felizes os que ainda botam fé

no ser humano

felizes os que sabem ler

e têm algo para comer todos os dias

felizes os que criam o inferno

para depois prometer o paraíso

felizes os indiferentes, que não se

comovem com nada e sofrem menos

felizes os que mentem para si mesmos e

acreditam piamente nisso

felizes os infelizes, pois estes são os

verdadeiros iluminados

felizes os que nunca choram e, portanto,

não passam vergonha

felizes os que têm autoconfiança,

autoestima, automóvel

felizes os amigos dos poderosos,

que tudo querem, tudo podem

felizes os que acreditam no amor de Cristo

pois estes não têm mais salvação

felizes os andarilhos, os indecisos, os

confusos, os sem-rumo-na-vida

felizes os que choram com facilidade pois

estes estão sempre reciclando

a água parada dos seus olhos, fazendo

chover nos seus corações

felizes os piegas, os românticos

ultrapassados, os bregas, os que falam de

amor sem medo do ridículo, nem que seja

para faturar uma grana boa naquela

música que vive tocando no rádio e o

povão adora

felizes os que escrevem livros de auto-

ajuda e ganham muito, muito dinheiro, que

é o que realmente importa, que é o que

realmente interessa

 
 
 
 
 
 
 
 

O HORROR, O HORROR         

 

 

 

como, depois de ler nos jornais a notícia

da morte do menino, que foi torturado

com óleo quente para revelar o paradeiro

do pai, escrever um poema?

 

como se olhar no espelho?

como dividir com vocês

todo esse ar que respiramos?

como ficar indiferente

e passar a próxima página?

como sair na rua e desejar

bom dia aos que passam?

 

como continuar vivendo?

 

 

 

 

 

 

 

 

Poemas do livro viver deveria bastar. Edição do autor.

 
 
 
 
 
 

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29/05/2013 at 11:54

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SOLIDÃO – Marguerite Yourcenar

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não creio como eles creem,
não vivo como eles vivem,
não amo como eles amam…

morrerei
como eles morrem.

 

 

Do livro Fogos. Tradução de Maria da Graça Morais Sarmento.

Written by passeipostei

28/04/2013 at 12:21

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Poemas de Orley Mesquita

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 Poema biográfico

                                      

 

 

Minha vida sou eu de lado alado.
Se colho uma flor do meu jardim
Um gato reinventa-se no telhado.

Quando a lua me deixa embriagado,
Cerro os olhos de nojo e sofrimento.
Visto meu terno branco, hoje cinzento,
E vou-me divertindo com o diabo.

A noite do que fui deixou-me cego;
Nem me restaram versos a rezar.
Cubro meu corpo de jóias impossíveis
E bebo geometrias do sonhar.

Faço contas. Passo tudo a limpo.
Varro o chão de vidro do pesar.
Embriaga-me o fruto adormecido
E sou meu próprio sangue: sou o mar.

Prego bandeiras de papel carbono
Datilografo o nome a rasurar.
Corrijo o verbo, penso esquecimentos,
E referto de mim vou-me deitar.

 

 

 

 

 

Imagem 

Poema Fácil

 

 

 

Amei Fernando
E amei Julinho.
Amei a pedra
E a flor insana.
Amei o mundo
E os seus mistérios,
Que muitos são
E nos enganam.

Às coisas feias
Fiz uma prece.
Amei na sombra
A minha morte.
Não tive nada
Porque chorasse
Dos meus amores
A frágil sorte.

Amei Terêncio
Na dor dos anos.
Augusto amei
Que já se foi;
Seus mansos olhos
Hoje tardios,
Tomaram a cor
Do que me dói.

Amei o sol
Que me foi digno.
Ao mar amei
E a mim também.
Se outros amores
Me entristeceram,
Outros vingaram
Que foram sem.

Amei os bichos
Ainda criança.
Meu corpo amei
Se adolesci.
Amando tanto
Em vasto mundo,
No amor dos anjos
Só me feri.

Não quero nada
Do que passado,
Guarde memória
De insensatez;
Quero morrer
De haver amado
O que ainda
Não conheci.

Amei Carlinhos
À flor da tarde
E o vi ardente
Sonhar em mim.
Amei o vinho
E a mesa farta,
Mas São Francisco
Amou-me a mim.

 

 Imagem

 

A derrubada           

 

 

 

A curva das tuas nádegas,

A força dos teus músculos,

Tudo foi meu.

Passaram-se os dias.

Caíste e recaíste

Em constante inconstância…

Agora, na derrubada,

Restaram, apenas, o retrato,

A conta do bar

E os chinelos empoeirados sob a cama.

 

 

 

Divagação I

Dádiva dos deuses
O que escrevo.
Sílaba por sílaba
Emerge do silêncio
A geometria do verso.

O poema não se adivinha.

Divagação II

Alguma coisa de luz
Toma-se a alma,
Simples como um sopro
As palavras fulgem.

Austeridade do traço
No limbo do papel.

Poesia é liberdade.

 

 

 

Somos grandes…
 

 
 
Somos grandes,
Porque Tudo é grande.
Nele nada se perde:
Nem sequer o fero espinho do mal.

O nosso destino é sombra que vaga
À deriva do mundo, dos astros, de Deus.
Somos o que falta e o que sobra
Dos sentidos, dos seres e das coisas,
Como se destino houvesse!…

Somos o vazio pleno,
O enigma sem mistério,
Do derradeiro sonho,
Do último renascer.

 

Poemas escolhidos através da antologia Poesia e Prosa de Orley Mesquita, publicada pela Companhia Editora de Pernambuco. Organização, prefácio e notas de Anco Márcio Tenório Vieira.

 

 

Written by passeipostei

28/04/2013 at 11:51

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