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literatura ou quase

Coelhinho da Páscoa, o que trazes pra mim?

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Raimundo de Moraes

 

 

 

 

 

Betina e Ramiro eram católicos apostólicos romanos convictos e praticantes, até se abstinham de comer carne vermelha na Sexta-feira Santa.
– Veja, Betina, este panfleto. Que vergonha! Oferecem ovos de Páscoa de todos os tipos e preços e esquecem o verdadeiro sentido da data!
– É mesmo, meu amor. Antigamente havia mais respeito com a Quaresma e com o Nosso Senhor.
Os dois também estavam preocupados com o filho, Ramiro Jr. O casal purgava o inferno na terra através dessa criatura sempre criada com amor e carinho. Apesar desses cuidados, com quatro anos de idade Ramiro Jr. já tinha sido expulso de dois colégios, e nem fora iniciado na alfabetização.
Nunca quis chupeta, com um ano deixou de molhar a cama. Aos dois já destruía todos os brinquedos – para ver como funciona, pensavam os pais, que gracinha – e uma longa sucessão de babás abandonaram seu posto por motivos de violência: mordidas, arranhões na cara e até um garfo enfiado numa coxa robusta.
Não adiantava castigos, conversas, palmadas na bunda.
– Ramiro, meu bem, em que erramos?
– O que disse a última psicóloga? Ele é hiperativo?
– Não. Ele tem tendências homicidas.
Além disso, em época de Páscoa, Júnior entrava numa agitação febril. Os ovos de chocolate lhe fascinavam de uma maneira que ele chegava a delirar diante de um anúncio ou diante de um teto decorativo de uma loja pronta para vender milhões de ovos e deixar todos felizes – cristãos ou não.
No seu primeiro surto pascoalino Juninho abraçou um ovo gigante nas Lojas Americanas e só saiu de lá depois que Ramiro e Betina passaram – filho e chocolate – na máquina do caixa.
No ano seguinte – já na escolinha – desenhava ovos e ovos e ovos, babava os papéis, arregalava os olhos, a Tia Laura assustada: Juninho, você quer colorir o coelhinho carregando a cestinha? Ele cuspiu na cara da professora: eu quero um ovo! Bem grande!
E a Páscoa se aproximava.
– Ramiro, meu amor, que tal passarmos o feriado da Semana Santa no interior e fugirmos desse consumismo alienante?
– Boa ideia – abraçou-a: será que podemos fazer amor hoje? (eles eram católicos praticantes e usavam a tabelinha. Mas Ramiro nunca contou para a mulher que era estéril, a caxumba já tinha detonado os seus ovos reprodutores. Quem seria o pai de Juninho? Enfim, perdoar é algo divino. E Betina, por sua vez, nunca contou pro marido que usava anticoncepcional desde o nascimento do herdeiro, pois sempre achou que pro papa e pros cardeais pimenta no cu dos outros é refresco. Se viesse outro filho endemoniado ela não aguentaria, cruz credo. Melhor se prevenir).
– Para onde vamos?, perguntou Ramiro Jr. dentro do carro com os pais.
– Uma fazendinha no interior, filhinho. Lá tem cavalinho de verdade pra você andar nele, vai poder pescar com papai, tem outras crianças…
– E meu ovo? E meu ovo? Vou ganhar ovo de Páscoa?
– Lá na fazendinha a gente vê isso.
– Quero meu ovo AGORA!
Juninho teve ataque histérico dentro do carro, berrando, pulando, batendo contra os vidros. Os pais assustadíssimos. As pessoas olhavam.
– Fazendinha não! Fazendinha não! Quero meu ovo!
Bem, entraram num supermercado.
– O que faremos, Betina?
– Temos que ter calma, meu amor. Jesus disse: vinde a mim as criancinhas.
Ramiro empurrava o carrinho com o filho dentro rodeado de ovos de chocolate. Estava numa felicidade delirante: pegue aquele ali amarelo, papai! Tem brinquedo dentro!
– Sim, Juninho.
Retornaram para casa. No jantar Ramiro Jr. não comeu o seu tradicional pacote de batatas fritas com refrigerante – tinha ojeriza a verduras e frutas –engoliu todo o chocolate que pôde. No tapete da sala, embalagens coloridas estavam espalhadas como um segundo chão. As paredes e os sofás melecados de pequenas mãozinhas marrons. Os pais assistiam mudos à televisão.
A primeira diarreia foi às duas da madrugada e sujou o quarto. Vieram outras, até o alvorecer.
No café da manhã, Betina disse: ainda tem ovinho, filho. Quer? Sorrindo, ele se atirou nas sobras com renovado entusiasmo. Depois papai chegou da rua com mais ovos nos braços. Ovos beeeeem grandes! Que delícia!
Sábado de Aleluia. Nunca se cagou tanto naquela casa – oh Senhor, tenha piedade.
– Este aqui veio cheio de jujubas dentro, filho. Coma… isso… coma tudo.
Sucessivos banquetes de chocolates foram servidos e engolidos.
Enfim no domingo trombetas intestinais anunciavam o fim de Ramiro Jr. Em seu desfalecimento e glória, seu pai parecia um Chokito, sua mãe um Sonho Valsa. Já perto da meia-noite, entraram na emergência do hospital com o filho nos braços. Não aconteceu nenhum milagre: desidratado e intoxicado, morreu Juninho.
Foi enterrado vestido como coelhinho da Páscoa, uma fantasia azul e branca cedida por uma vizinha.
– Betina, que coisa horrível! Enterrá-lo vestido assim!
– Mamãe, Juninho adorava a Páscoa. E é uma época de renascimento para todos os cristãos.
– Era um amor de criança. De onde estiver deve estar orando por nós.
– Amém, amém.

 

 

 

Written by passeipostei

14/04/2014 at 20:00

Poemas de Semíramis

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Sevilha
 

Na Igreja de la Anunciación
rezei para qualquer deus
Barroco ou pagão
não importa
Quantas mulheres naqueles bancos
curvaram seus lamentos
e murmuraram
a mesma prece
que lá deixei?

Ensaio de dança na ópera, Edgar Degas

Ensaio de dança na ópera, Edgar Degas


 
 

Leitmotiv
 
 

Me aproximo
das bailarinas de Degas
– azúleas, ocres, cinzas
ninfas
Estão ali eternamente vivas
nas molduras douradas
O que dançam? Debussy? Chopin?
Quero um pas de deux
com a Vida
Mas o macabro
são tuas mãos
que tocam
a mesma
música
 
 
 

        Oferenda
         
         

        Como uma esfinge
        apareço ao dia
        renovada em milênios
        : sem memórias
        na gargalhada em que me vejo
        te esqueço um pouco.
        Arde tua ignorância por não saber
        minhas caras
        se me entendes
        então outra cara tenho
        (Como uma esfinge
        faço-me alicerce em segredos.
        Não sou resposta nem começo)
        Quando a tarde me bate em sol
        derramo minha sombra
        e abranjo teus desejos na escuridão
        E só então sozinha
        quando teu corpo
        é fardo cansado de perguntas
        outra vez em silêncio
        ofereço o peito
        para a naja escura

       

      Dançarinas in blue, Edgar Degas

      Dançarinas in blue, Edgar Degas


       
       

      No bar

       
       
      Desfibrando
      os sais da cerveja morna
      evocamos as mortas idas:
      Auta, Florbela, Gilka
      Me olha:
      eu a próxima morta?
       
       
       
       
       
       
       

      Ode nas sombras
       
       
      El silencio redondo de la noche
      sobre el pentagrama
      del infinito
      Garcia Lorca
       
       

      A noite
      escureceu meus cabelos:
      só a esperança
      abre clarões neste caminho
      Para onde leva-me
      a lua nova
      no céu de ônix?
      Diana escondeu sua face
      mas não eu
      Não tenho medo de amar
      Talvez eu seja hoje
      a mendicante louca
      a perder-se entre o vau e as árvores
      Sem cajado. Sem lume
      E se perco o caminho
      encontrarei outras verdades
      E serei tudo. E serei lua

       

       

      Semíramis é um dos personagens literários criados pelo escritor e jornalista Raimundo de Moraes. Os poemas deste post estão no livro Delivrário de Amor e Morte – opus nefandus, que faz parte do Tríade, composto por mais dois livros num mesmo volume: Atirem a pedra, do heterônimo Aymmar Rodriguéz, e Ciclo, assinado pelo próprio Raimundo. Semíramis – artista plástica, poeta e bruxa wicca – é o heterônimo antagônico de Aymmar, tanto no estilo literário quanto na biografia.

       

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04/03/2014 at 19:35

Linguagem literária: a sua expressão

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Retrato de Laura Battiferri, de Agnolo Bronzino (detalhe).

Retrato de Laura Battiferri, de Agnolo Bronzino (detalhe).

Se a obra literária se distingue da não-literária pelo conteúdo, isto é, por um tipo de conhecimento da realidade e pelo grau elevado deste conhecimento, não deixa de se distinguir também pela forma. Distingue-se da expressão de conhecimento do homem comum, porque sua forma ou linguagem (chamada linguagem literária) é mais “rica” e mais “variada” que a do homem comum, o que é compreensível, pois o artista, isto é, o poeta, o ficcionista, o teatrólogo, sente a existência com mais sensibilidade, vê as coisas com mais acuidade, pensa os problemas da vida com mais inteligência; e quem tem mais o que dizer, diz com mais palavras e em mais complexa expressão. Além disso, o escritor, diferentemente do homem comum, é um criador de expressão, pois tem constantemente de inventar novas expressões para suas intuições. Por outro lado, a forma da obra literária distingue-se também da forma das obras de Ciências Humanas e Naturais: nestas a forma respeita a regras rigorosas, inerente a cada tipo de ciência (daí se falar em linguagem da Matemática, da Lógica, da Química), enquanto que na obra literária as regras de expressão são as criadas pelo próprio artista.
Em conclusão: a obra literária se caracteriza também por sua forma, peculiar a cada tipo de obra e fruto do esforço criativo que a produziu.

 
 

Antônio Soares Amora in Introdução à Teoria da Literatura, Ed. Cultrix. Porém, o autor desse blog tem algumas ressalvas à afirmação “quem tem mais o que dizer, diz com mais palavras e em mais complexa expressão.”

 
 

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03/03/2014 at 19:56

Antes do Baile Verde

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Lygia Fagundes Telles

 

 

 

O rancho azul e branco desfilava com seus passistas vestidos à Luís XV e sua porta-estandarte de peruca prateada em forma de pirâmide, os cachos desabados na testa, a cauda do vestido de cetim arrastando-se enxovalhada pelo asfalto. O negro do bumbo fez uma profunda reverência diante das duas mulheres debruçadas na janela e prosseguiu com seu chapéu de três bicos, fazendo rodar a capa encharcada de suor.
– Ele gostou de você- disse a jovem voltando-se para a mulher que ainda aplaudia. – O cumprimento foi na sua direção, viu que chique?
A preta deu uma risadinha.
– Meu homem é mil vezes mais bonito, pelo menos na minha opinião. E já deve estar chegando, ficou de me pegar às dez na esquina. Se me atraso, ele começa a encher a caveira e pronto, não sai mais nada.
A jovem tomou-a pelo braço e arrastou-a até a mesa-de-cabeceira. O quarto estava resolvido como se um ladrão tivesse passado por ali e despejado caixas e gavetas.
– Estou atrasadíssima, Lu! Essa fantasia é fogo… Tenha paciência, mas você vai me ajudar um pouquinho.
– Mas você ainda não acabou?
Sentando-se na cama, a jovem abriu sobre os joelhos o saiote verde. Usava biquíni e meias rendadas também verdes.
– Acabei o quê, falta pregar tudo isso ainda, olha aí… Fui inventar um raio de pierrete dificílima!
A preta aproximou-se, alisando-se, com as mãos no quimono de seda brilhante. Espetado na carapinha trazia um crisântemo de papel-crepom vermelho. Sentou-se ao lado da moça.
O Raimundo já deve estar chegando, ele fica uma onça se me atraso. A gente vai ver os ranchos, hoje quero ver todos.
– Tem tempo, sossega – atalhou a jovem.Afastou os cabelos que lhe caíam nos olhos. Levantou o abajur que tombou na mesinha. – Não sei como fui me atrasar desse jeito.
– Mas não posso perder o desfile, viu, Tatisa? Tudo, menos perder o desfile!
– E quem está dizendo que você vai perder?
A mulher enfiou o dedo no pote de cola e baixou-o de leve nas lantejoulas do pires. Em seguida, levou o dedo até o saiote e ali deixou as lantejoulas formando uma constelação desordenada. Colheu uma lantejoula que escapara e delicadamente tocou com ela cola. Depositou-a no saiote, fixando-a com pequenos movimentos circulares.
– Mas tiver que pregar as lantejoulas em todo o saiote…
– Já começou a queixação? Achei que dava tempo e agora não posso largar a coisa pela metade, vê se entende! Você ajudando vai num instante, já me pintei, olha aí, que tal minha cara? Você nem disse nada, sua bruxa! Hein?… Que tal?
Ficou bonito, Tatisa. Com o cabelo assim verde você está parecendo uma alcachofra, tão gozado. Não gosto é desse verde na unha, fica esquisito.
Num movimento brusco, a jovem levantou a cabeça para respirar melhor. Passou o dorso da mão na face afogueada.
– Mas as unhas é que dão a nota, sua tonta. É um baile verde, as fantasias têm que ser verdes, tudo verde. Mas não precisa ficar me olhando, vamos, não pare, pode falar, mas vá trabalhando. Falta mais da metade, Lu!
– Estou sem óculos, não enxergo direito sem os óculos.
– Não faz mal – disse a jovem, limpando no lençol o excesso de cola que lhe escorria pelo dedo. Vá grudando de qualquer jeito que lá dentro ninguém vai reparar, vai ter gente à beça. O que está me endoidando é este calor, não aguento mais, tenho a impressão de que estou me derretendo, você não sente? Calor bárbaro!
A mulher tentou prender o crisântemo que resvalara para o pescoço. Franziu a testa e baixou o tom de voz.
– Estive lá.
– E daí?
– Ele está morrendo.
Um carro passou na rua, buzinando freneticamente. Alguns meninos puseram-se a cantar aos gritos, o compasso marcado pelas batidas numa panela: A coroa do rei não é de ouro nem de prata…
– Parece que estou num forno – gemeu a jovem dilatando as narinas porejadas de suor. – Se soubesse, teria inventado uma fantasia mais leve.
– Mais leve do que isso? Você está quase nua. Tatisa. Eu ia com a minha havaiana, mas só porque aparece um pedaço da coxa o Raimundo implica. Imagine você então…
Com a ponta da unha, Tatisa colheu uma lantejoula que se enredara na renda da meia. Deixou-a cair na pequena constelação que ia armando na barra do saiote e ficou raspando pensativamente um pingo ressequido de cola que lhe caíra no joelho. Vagava o olhar pelos objetos, sem fixar-se em nenhum. Falou num tom sombrio:
– Você acha, Lu?
– Acha o quê?
– Que ele está morrendo?
– Ah, está sim. Conheço bem isso, já vi um monte de gente morrer, agora já sei como é. Ele não passa desta noite.
– Mas você já se enganou uma vez, lembra? Disse que ele ia morrer, que estava nas últimas… E no dia seguinte ele já pedia leite, radiante.
– Radiante? – espantou-se a empregada. Fechou num muxoxo os lábios pintados de vermelho-violeta. – E depois, eu não disse não senhora que ele ia morrer, eu disse que ele estava ruim, foi o que eu disse. Mas hoje é diferente, Tatisa. Espiei da porta, nem precisei entrar para ver que ele está morrendo.
– Mas quando fui lá ele estava dormindo tão calmo, Lu.
– Aquilo não é sono. É outra coisa.

Afastando bruscamente om saiote aberto nos joelhos, a jovem levantou-se. Foi até a mesa, pegou a garrafa de uísque e procurou um copo em meio da desordem dos frascos e caixas. Achou-o debaixo da esponja de arminho. Sopro o fundo cheio de pó-de-arroz e bebeu em largos goles, apertando os maxilares. Respirou de boca aberta. Dirigiu-se à preta.
– Quer?
– Tomei muita cerveja, se misturo dá ânsia.
A jovem despejou mais uísque no copo.
– Minha pintura não está derretendo? Veja se o verde dos olhos não borrou… Nunca transpirei tanto, sinto o sangue ferver.
– Você está bebendo demais. E nessa correri… Também não sei por que essa invenção de saiote bordado, as lantejoulas vão se desgrudar todas no aperto. E o pior é que não posso caprichar, com o pensamento no Raimundo lá na esquina…
– Você é chata, não Lu? Mil vezes fica repetindo a mesma coisa, taque-taque-taque-taque! esse cara não pode esperar um pouco?
A mulher não respondeu. Ouvia com expressão deliciada a música de um bloco que passava já longíquo. Cantarolou em falsete: Acabou chorando… acabou chorando…
– No outro carnaval entrei num bloco de sujos e me diverti à grande. Meu sapato até desmanchou de tanto que dancei.
– E eu na cama, podre de gripe, lembra? Neste quero me esbaldar.
– E seu pai?
Lentamente a jovem foi limpando no lençol as pontas dos dedos esbranquiçados de cola. Tomou um gole de uísque. Voltou a afundar o dedo no pote.
– Você quer que eu fique aqui chorando, não é isso que você quer? Que que eu cubra a cabeça com cinza e fique de joelhos rezando, não é isso que você está querendo? – Ficou olhando para a ponta do dedo coberto de lantejoulas. Foi deixando no saiote o dedal cintilante. – Que é que eu posso fazer? Não sou Deus, sou? Então? Se ele está pior, que culpa tenho eu?
– Não estou dizendo que você é culpada, Tatisa. Não tenho nada com isso, ele é seu pai, não meu. Faça o que bem entender.
– Mas você começa a dizer que ele está morrendo!
– Pois está mesmo.
– Está nada! Também espiei, ele está dormindo, ninguém morre dormindo daquele jeito.
– Então não está.
A jovem foi até a janela e ofereceu a face ao céu roxo. Na calçada, um bando de meninos brincava com bisnagas de plástico em formato de banana, esguichando água um na cara do outro.
Interromperam a brincadeira para vaiar um homem que passou vestido de mulher, pisando para fora nos sapatos de saltos altíssimos. “Minha lindura, vem comigo, minha lindura!” – gritou o moleque maior, correndo atrás do homem. Ela assistia à cena com indiferença. Puxou com força as meias presas aos elásticos do biquíni.
– Estou transpirando feito um cavalo. Juro que se não tivesse me pintando, me metia agora num chuveiro, besteira a gente se pintar antes.
– E eu não aguento mais de sede- resmungou a empregada, arregaçando as  mangas do quimono. – Ai! uma cerveja bem geladinha . Gosto mesmo é de cerveja, mas o Raimundo prefere cachaça. No ano passado, ele ficou de porre os três dias, fui sozinha no desfile. Tinha um carro que foi o mais bonito de todos, representava um mar. Você precisa ver aquele monte de sereias enroladas em pérolas. Tinha pescador, tinha pirata, tinha polvo, tinha tudo! Bem lá em cima, dentro de uma concha abrindo e fechando, a rainha do mar coberta de joias…
– Você já se enganou uma vez – atalhou a jovem. – Ele não pode estar morrendo, não pode. Também estive lá antes de você, ele estava dormindo tão sossegado. E hoje cedo até me reconheceu, ficou me olhando, me olhando e depois sorriu. Você está bem papai?, perguntei e ele não respondeu mas vi que entendeu perfeitamente o que eu disse.
– Ele se fez de forte, coitado.
– De forte, como?
– Sabe que você tem o seu baile, não quer atrapalhar.
– Ih, como é difícil conversar com gente ignorante – explodiu a jovem, atirando no chão as roupas amontoadas na cama, Revistou os bolsos de uma calça comprida. – Você pegou meu cigarro?
– Tenho minha marca, não preciso dos seus.
– Escuta, Luzinha, escuta – começou ela, ajeitando a flor na carapinha da mulher. – Eu não estou inventando, tenho certeza de que ainda hoje cedo ele me reconheceu. Acho que nessa hora sentiu alguma dor porque uma lágrima foi escorrendo daquele lado paralisado. Nunca vi ele chorar daquele lado, nunca. Chorou só daquele lado, uma lágrima tão escura…
– Ele estava se despedindo.
– Lá vem você de novo, merda! Pare de bancar o corvo, até parece que você quer que seja hoje. Por que tem que repetir isso, por quê?
– Você mesmo pergunta e não quer que eu responda. Não vou mentir, Tatisa.
A jovem espiou debaixo da cama. Puxou um pé de sapato. Agachou-se mais, roçando os cabelos verdes no chão. Levantou-se , olhou em redor. E ajoelhou-se devagarinho diante da preta. Apanhou o pote de cola.
– E se você desse um pulo lá só para ver?
– Mas você quer ou não que eu acabe isto? – a mulher gemeu exasperada, abrindo e fechando os dedos ressequidos de cola.
– O Raimundo tem ódio de esperar, hoje ainda apanho!
A jovem levantou-se. Fungou, andando rápido num andar de bicho na jaula. Chutou o sapato que encontrou no caminho.
– Aquele médico miserável. Tudo culpa daquela bicha. Eu bem disse que não podia ficar com ele aqui em casa, eu disse que não sei tratar de doente, não tenho jeito, não posso! Se você fosse boazinha, você me ajudava, mas você não passa de uma egoísta, uma chata que não quer saber de nada. Sua egoísta!
– Mas Tatisa, ele não é o meu pai, não tenho nada com isso, até que ajudo muito sim senhora, como não? Todos esses meses quem é que tem aguentado o tranco? Não me queixo porque ele é muito bom, coitado. Mas tenha a santa paciência, hoje não! Já estou fazendo demais aqui plantada quando devia estar na rua.
Com um gesto fatigado, a jovem abriu a porta do armário. Olhou-se no espelho. Beliscou a cintura.
– Engordei, Lu.
– Você, gorda? Mas você é só osso, menina. Seu namorado não tem onde pegar. Ou tem?
Ela ensaiou com os quadris um movimento lascivo. Riu. Os olhos animaram-se:
– Lu, Lu, pelo amor de Deus, acabe logo que à meia-noite ele vem me buscar. Mandou fazer um pierrô verde.
-Também já me fantasiei de pierrô. Mas faz tempo.
– Vem num tufão, viu que chique?
– Que é isso?
– É um carro muito bacana, vermelho. Mas não fique aí me olhando, depressa, Lu, você não vê que… – Passou ansiosamente a mão no pescoço. – Lu, Lu por que ele não ficou no hospital?!
Estava tão bem no hospital…
– Hospital de graça é assim mesmo, Tatisa. Eles não podem ficar a vida inteira com um doente que não resolve, tem doente esperando até na calçada.
– Há meses que venho pensando nesse baile. Ele viveu sessenta e seis anos. Não podia viver mais um dia?

A preta sacudiu o saiote e examinou-o a uma certa distância. Abriu-o de novo no colo e inclinou-se para o pires de lantejoulas.
– Falta só um pedaço.
– Um dia mais…
– Vem me ajudar, Tatisa, nós duas pregando vai num instante.
Agora ambas trabalhavam num ritmo acelerado, as mãos indo e vindo do pote de cola ao pires e do pires ao saiote, curvo como uma asa verde, pesada de lantejoulas.
– Hoje o Raimundo me mata – recomeçou a mulher, grudando as lantejoulas meio ao acaso. Passou o dorso da mão na testa molhada. Ficou com a mão parada no ar. Você não ouviu?
A jovem demorou para responder.
– O quê?
– Parece que ouvi um gemido.
Ela baixou o olhar.
– Foi na rua.
Inclinaram as cabeças irmanadas sob a luz amarela do abajur.
– Escuta, Lu, se você pudesse ficar hoje, só hoje – começou ela num tom manso. Apressou-se: – Eu te daria meu vestido branco, aquele meu branco, sabe qual é? E também os sapatos, estão novos ainda, você sabe que eles estão novos. Você pode sair amanhã, você pode sair todos os dias, Lu, fica hoje!
A empregada empertigou-se, triunfante.
– Custou, Tatisa, custou. Desde o começo eu já estava esperando. Ah, mas hoje nem que me matasse eu ficava, hoje não. – O crisântemo caiu enquanto ela sacudia a cabeça. Prendeu-o com um grampo que abriu entre os dentes. – Perder esse desfile? Nunca! Já fiz muito – acrescentou sacudindo o saiote. – Pronto, pode vestir. Está um serviço porco mas ninguém vai reparar.
– Eu podia te dar o casaco azul – murmurou a jovem, limpando os dedos no lençol.
– Nem que fosse para ficar com meu pai eu ficava, ouviu isso, Tatisa? Nem com meu pai, hoje não.
Levantando-se de um salto, a moça foi até a garrafa e bebeu de olhos fechados mais alguns goles. Vestiu o saiote.
– Brrrr! Esse uísque é uma bomba – resmungou, aproximando-se do espelho. – Anda, venha aqui me abotoar, não precisa fica aí com essa cara. Sua chata.
A mulher tateou os dedos por entre o tule.
– Não acho os colchetes.
A jovem ficou diante do espelho, as pernas abertas, a cabeça levantada. Olhou para a mulher através do espelho:
– Morrendo coisa nenhuma, Lu. Você estava sem os óculos quando entrou no quarto, não estava? Então não viu direito, ele estava dormindo.
– Pode ser que me enganasse mesmo.
– Claro que se enganou. Ele estava dormindo.
A mulher franziu a testa, enxugando na manga do quimono o suor do queixo. Repetiu como um eco:
– Estava dormindo, sim.
– Depressa, Lu, faz uma hora que está com esses colchetes!
– Pronto – disse a outra, baixinho, enquanto recuava até a porta.
– Não precisa mais de mim, não é?
– Espera! – ordenou a moça perfumando-se rapidamente. Retocou os lábios, atirou o pincel ao lado do vidro destapado. – Já estou pronta, vamos descer juntas.
– Tenho que ir, Tatisa!
– Espera, já disse que estou pronta – repetiu, baixando a voz.- Só vou pegar a bolsa…
– Você vai deixar a luz acesa?
– Melhor, não? A casa fica mais alegre assim.
No topo da escada ficaram mais juntas. Olharam na mesma direção: a porta estava fechada. Imóveis como se tivessem sido petrificadas na fuga, as duas mulheres ficaram ouvindo o relógio da sala. Foi a preta quem primeiro se moveu. A voz era um sopro:
– Quer ir dar uma espiada, Tatisa?
– Vá você, Lu…
Trocaram um rápido olhar. Bagas de suor escorriam pelas têmporas verdes da jovem, um suor turvo como o sumo de uma casca de limão. O som prolongado de uma buzina se fragmentou lá fora. Subiu poderoso o som do relógio. Brandamente a empregada desprendeu-se da mão da jovem. Foi descendo a escada na ponta dos pés. Abriu a porta da rua.
– Lu! Lu! – a jovem chamou num sobressalto. Continha-se para não gritar. – Espera aí, já vou indo!
E apoiando-se ao corrimão, colada a ele, desceu precipitadamente. Quando bateu a porta atrás de si, rolaram pela escada algumas lantejoulas verdes na mesma direção, como se quisessem alcançá-la.

 

 

Este conto faz parte do livro que tem o seu mesmo título – Antes do Baile Verde – que na sua primeira edição, em 1970 pela Editora Bloch, reuniu quinze narrativas de Lygia, produzidas entre 1949 e 1969. Posteriormente, na segunda edição, mais cinco contos foram incluídos. Na publicação atual, da Companhia das Letras, a versão da coletânea apresenta dezoito narrativas. Antes do Baile Verde é considerado um dos melhores livros da escritora paulista, e tema constante nos vestibulares de todo o Brasil.

 

 

Written by passeipostei

24/02/2014 at 19:58

Dois poemas de Frank Bidart

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ESTROFES TERMINANDO COM AS MESMAS DUAS PALAVRAS

 

Primeiro, me senti receoso porque havia entrado
pela porta que dizia Tua Morte.

Nenhuma palavra de valor se
desentranhava de tua morte.

És a ruína cujo braço enlaça a mulher jovem
no bar póstumo, antes de tua morte.

Acima de ti, a grama ainda
está faminta, alimentada por tua morte.

Mata quem matou teu pai, disse tua vida
voltando-se de novo para mim antes de tua morte.

Difícil envelhecer e manter a fome.
Ainda tinhas fome na hora de tua morte.

 

STANZAS ENDING WITH THE SAME TWO WORDS

 

At first I felt shame because I had entered
through the door marked Your Death.

Not a valuable word written
unsteeped in your death.

You are the ruin whose arm encircles the young woman
at the posthumous bar, before your death.

The grass is still hungry
above you, fed by your death.

Kill whatever killed your father, your life
turning to me again said before your death.

Hard to grow old still hungry.
You were still hungry at your death.

 

Prometheus and God, do artista gráfico sérvio Dejano23.

 

 

FOME DO ABSOLUTO


A Terra você sabe é redonda mas parece chata.

Você não pode confiar
nos sentidos.

Você pensa que já viu todo tipo de criatura
porém não

esta criatura.

*

Quando o conheci, sabia que

me havia desmamado de Deus, não
da fome do absoluto. Ó boca

insaciável pronunciando o que é e deve
permanecer inapreensível —

dizendo Você não é finito. Você não é finito.

 


HUNGER FOR THE ABSOLUTE


Earth you know is round but seems flat.

You can’t trust
your senses.

You thought you had seen every variety of creature
but not

this creature.

*


When I met him, I knew I had

weaned myself from God, not
hunger for the absolute. O unquenched

mouth, tonguing what is and must
remain inapprehensible —

saying You are not finite. You are not finite.

 

 

 

Frank Bidart nasceu na Califórnia em 1939. É professor de inglês no Wellesley College, em Boston. Publicou Golden State, The Sacrifice, Star Dust e Metaphysical Dog. Os dois poemas aqui publicados foram traduzidos por Carlos Machado, que mantém o blog Alguma Poesia.


 
 

Written by passeipostei

08/12/2013 at 17:21

Virar mulher

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R. Mineiro

 

 

 

No carnaval de 1993, me maquiei cedo na frente do espelho. Batom vermelho, blush, rímel, um top básico, uma saia colorida. Nunca me vestira daquela maneira. De alguma forma aquela transgressão me completava.

As exclusividades femininas agora minhas. Um último ajuste nos brincos postiços e a certeza: estava lindo. Silencioso, caminhei para a porta da rua.

Aos treze anos, fui surpreendido por meu pai que me proibiu o travestismo. Passei o sábado de Zé Pereira trancado em casa, assistindo na TV a meus amigos brincando de ser mulher.

Alguns anos antes, acompanhei minha irmã em sua primeira aula de ballet. Fiquei encantado. Os passos, o ritmo, as cores do ambiente. Ainda hoje, posso recordar a música executada na classe. Na volta para casa disse a minha mãe o quanto gostara das bailarinas. No dia seguinte estava matriculado na escolinha de futebol.

Assim, desde novo, ia sendo separado do mundo feminino como se me cortassem, cotidianamente, um cordão umbilical. Por isto, seguia olhando para meu umbigo e enxergando através dele a tatuagem que carregava comigo. No meu ponto de equilíbrio, um rastro feminino.

E de tanto olhar para aquela cicatriz materna, descobri uma menina a crescer dentro de mim. Foi crescendo, crescendo e ameaçou explodir em hérnia. Minhas entranhas querendo sair, num inútil esforço de me virar ao avesso. Meu umbigo enorme, meus pais mandaram tirá-lo. Após a cirurgia, acordei com a dolorosa sensação de minha primeira castração feminina.

Esquisito este desejo de ser mulher. Esta palavra estranha que lembra verbos, correr, bater, beber. Substantivo grávido de sentidos e existência. A sentença: ser mulher, sempre me pareceu redundância.

Na busca desta condição, que também é uma ação, me encontrei em muitos adjetivos e superei outras preposições. Casei-me com uma bailarina e nos engravidamos de uma pequena atrevida. Todos sabem, ou deveriam saber, que é o gameta masculino quem determina o gênero das próximas gerações. O cromossomo XY é a marca genética de nossa máscula ambiguidade.

No nascimento de minha filha, finalmente cumpri a secreta profecia. Aquele pequeno mundo, determinado por meu código contraditório, teve a ventura de ser feminino. E agora, parte de mim vive neste mundo como fêmea. Penso nas alegrias, nas enciclopédias, nas fogueiras e pedras.

Apesar do penar, sinto-me completo, reconstituído com uma parte amputada. Orgulhoso, desfilo com a cria pelas ruas. As pessoas se espantam com um homem cuidando de um neném, ainda mais uma menina. As moças distribuem agradáveis olhares de curiosidade e admiração. Os senhores, em geral, de desconfiança.

Alguém me disse uma vez que a cena de um pai afagando seus filhos representa a esperança no mundo. É difícil ser o sentimento de um mundo sem sentimentos. Mas não procuram facilidades aqueles que arriscam virar mulher.

A paternidade feminina é a transgressão carnavalesca que não foi cumprida, é a sensação do palco para uma bailarina. Depois de trocar a fralda de minha filha, ela me olha com aquela cara séria de quem vai dizer algo de grande importância e balbucia:

– Mamãe!
 
 
 

hermafrodita

Written by passeipostei

08/12/2013 at 13:18

Publicado em Crônicas

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Written by passeipostei

25/08/2013 at 11:05

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