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Revendo o esplendor

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catedral

 

 

O gigantesco aeroporto de Brasília é coisa para maratonista. A gente desembarca e anda léguas para pegar as malas. O lugar foi reformado para receber os jogos da Copa de 2014 e as Olimpíadas 2016. Acho que os engenheiros responsáveis pelo novo aeroporto pensaram que todo viajante é atleta. Para quem atravessa o terminal para pegar as malas, seria justo no final receber uma medalhinha de cortesia com as frases “Welcome to Brasília. Não procure entender. Apenas sinta a cidade.”

Estive por aqui duas vezes no século passado quando a capital do país não era a metrópole nervosa de hoje. Dizem que das cidades-satélites – agora transformadas em bairros – para o Plano Piloto desenhado por Oscar Niemeyer, nos horários de maior movimento a pessoa gasta quase duas horas dentro de um carro. Os camelôs também invadiram Brasília. Rapazes e moças saem das tocas à noite e alugam seus corpinhos nas quadras do centro. Igrejas evangélicas em tudo que é canto – até encontrei uma vitrine cheia de óleos milagrosos, oh glória.  Brasília, que não era Brasil, mas sim algo abstrato, agora é.

Clarice Lispector escreveu dois textos comparativos sobre suas idas à capital do país. Uma das idas foi logo que a inauguraram e a outra na década de 1970. A cidade projetada e seus grandes vazios – isso há quase sessenta anos – induziu à Clarice um olhar místico-alucinógeno, personagens extraterrestres e tentativas de descrever a dura poesia em forma de concreto. Na primeira vez que estive aqui – um adolescente atormentado e míope –  escrevi um poema dizendo que, em formato de avião, Brasília quer voar. Mas hoje eu me pergunto: para onde?

Como é final de ano, digamos que oitenta por cento dos que vivem aqui já debandaram. Brasília tem o maior número de funcionários públicos do país por metro quadrado. Em época de recesso o povo some, senão enlouquece. Ou já são loucos por só terem shopping como opção de diversão? Desde a sua inauguração os gestores deixaram o Distrito Federal à margem da agenda cultural do Brasil. Soube que o belo Teatro Nacional está há cinco anos fechado. Não vi projetos de incentivo à cultura popular e quando um show de turnê passa por aqui os ingressos esfaqueiam o bolso, mas quem pode paga sorrindo.

Do décimo quinto andar vejo o cerrado que virou concreto. É como uma alucinação entremeada pelo característico barro vermelho e ipês floridos. Diante da catedral a gente tem vontade de se ajoelhar até mesmo do lado de fora. A fálica antena de TV me faz lembrar que de lá pessoas já se jogaram – de tédio ou de dor? – e hoje as filas para subir ao seu mirante seguem em ritmo ansioso de selfies.

O que Brasília quer de nós? Algumas cidades querem que a gente gaste todo o nosso dinheiro; outras, que a gente se divirta; outras, que a gente apenas se deslumbre e outras querem que aprendamos com alguma perda ou decepção. Mas Brasília não quer nada. Eu, que vivo com a sensibilidade bilhonesimamente espalhada por poros e pontas dedos, sei que Brasília é uma esfinge que pouco se importa com homens e ratos. Ela olha longe para onde ninguém pode ver.

Brasília é Shirley Bassey cantando I get a kick out of you, é um jazz de Shostakovitch, é uma guitarra solitária mas é também música sertaneja que impera absoluta nos ônibus e nos automóveis que cortam a cidade. Querem corroer o concreto tombado com acordes de Marília Mendonça e Bruno e Marrone. Mas espero que a capital federal sobreviva. Que sobreviva à carrocracia, à falta de estacionamento, à falta de um violino na calçada, à falta de um cavalo correndo desembestado na W3 às quatro horas da tarde. Porque todo o transgressivo em Brasília é chapa branca.

Não sei explicar, mas Brasília é debochada. Os ladrões do Congresso estupram tanto nossa dignidade que Brasília tornou-se uma senhora cínica. É como alguém apertando o nosso pescoço alegremente dizendo: não era isso que você queria?

Dividida em imutáveis castas, a cidade criada por JK tem um lado B, porque senão jamais seria uma cidade, mas sim um cenário de ficção. No Setor Sudoeste um ser ingênuo (eufemismo) poderá pagar R$ 74 por uma pequena pizza individual e achar normal, mas num lugar chamado Feira dos Goianos uma sacoleira pode pular de alegria e deixar todos os seus clientes na moda com precinhos camaradas. Vi grafites em Brasília. Vi sujeira. Vi mansões. Vi uma moça com um penteado tão fofo que parecia algodão doce e uma malha azul e branca cobrindo todo o seu corpo parecendo um mar bípede.

O que mais vi? Ah sim. Uma criança no café da manhã perguntando: mamãe, o que é isso? A genitora não sabia explicar, nem eu, meu Deus. Parecia uma paçoca ou um projeto de panqueca. Mas enquanto eu tomava suco de laranja a música ambiente solta uma canção tipo recordar é viver. Sabem há quantas décadas eu não escutava essa música? Bem, acho que Brasília sabia. Foi trilha sonora de uma história que vivi aqui. E que agora, juntando tudo, entrou no pacote tombado pela Unesco.

Depois volto para a varanda do flat, seguro na murada, sigo uma seta invisível. Antes de entrar no avião, rezei: me deem uma resposta. Agora, nesta manhã de Brasília, que se alterna em calor e chuva, a austera dama de rosto de concreto lentamente vira o perfil.  E sussurra algo bem baixinho.

Entendi, Brasília, entendi. Me perfumo de lavanda, recordo cenas de um filme chamado O sonho não acabou, lembro uma certa noite na Asa Norte, pego o elevador de serviço, um funcionário assustado me diz bom dia. Olho para o céu e me vem a frase de Clarice em sua crônica: Brasília é esplendor. Estou assustadíssima.

Eu também estou, minha senhora. Então segure minha mão e vamos juntos nesse labirinto.

 

Raimundo de Moraes

 

 

Foto: interior da Catedral de Brasília. Imagem da internet.
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02/01/2018 at 20:42

As charmosas mordidas de Lestat

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Desde que Drácula foi inventado por Bram Stoker, nunca os vampiros tiveram tão em alta, tanto no cinema como no mercado editorial. São vários autores e diretores explorando o filão, mas da recente safra lançada pelo book marketing, nenhum deles chega ao nível da norte-americana Anne Rice, quem em1976 iniciou a publicação de suas Crônicas vampirescas. Segundo Anne, o primeiro livro, Entrevista com o vampiro – que aqui no Brasil teve sua tradução feita por Clarice Lispector – foi uma tentativa para expurgar a dor que sentia pela morte de sua filha. Em 1985 veio o segundo livro, O vampiro Lestat e em 1994 as personagens de Anne ganharam versão para o cinema. O filme Entrevista com o vampiro, dirigido por Neil Jordan e estrelado por Brad Pitt e Tom Cruise, foi um sucesso mundial. Mas, para quem leu os livros de Anne Rice, sabe que na escalação do elenco aconteceram dois grandes deslizes: Tom Cruise não corresponde bem à imagem do Lestat original e colocaram o adulto e viril Antonio Banderas para viver o belo e etéreo Armand, um vampiro adolescente. Os livros de Anne Rice são ricos em referências históricas e um detalhado trabalho de reconstituição de época, além de uma incrível capacidade de tornar verossímil o que é apenas uma lenda. Depois das Crônicas vampirescas ela escreveu a ótima sequência As bruxas Mayfair e após a morte do marido, o poeta Stan Rice, resolveu dedicar-se a outros temas, como anjos e a biografia de Jesus Cristo. Na sequência abaixo, vemos a vampira-menina Claudia – vivida Kirsten Dunst, na época então com doze anos de idade – que se rebela contra o seu cruel destino: ter sido transformada pelos seus pais Lestat e Louis, e viver com uma alma adulta aprisionada para sempre num corpo de criança.

 

Raimundo de Moraes

 

 

 

 

 

 

Quem está preparado?

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por José Castello

 

Vivemos, nesse início de século, em um universo literário dominado pelas teorias, pelas leituras dirigidas, pela especialização, pela luta de prestígio entre as várias escolas de interpretação. Universo ocupado pela figura do leitor especialista, do erudito, do doutor de escola, daquele que “sabe o que lê”, a literatura se apequena. Ela é transferida para a esfera do conhecimento – mas, na literatura, não é do conhecimento que se trata. Esfera do saber – mas, na literatura, é bem mais importante não saber. Nesse cenário hiperespecializado, muitos leitores não se julgam prontos, ou capacitados, para ler um grande autor como Pessoa, ou Kafka, ou Rosa, ou Clarice. Esses grandes escritores parecem estar acima, ou além, de suas possibilidades; como se eles, leitores, não estivessem autorizados para o ato da leitura. No entanto, quem pode ser dizer preparado para ler um livro? Quem está realmente pronto para ler O castelo, de Kafka, ou O livro do desassossego, de Pessoa, ou A paixão segundo G. H., de Clarice, ou o Ulisses, de Joyce? Se tais leitores existem, eles não interessam à literatura. Se é que existem, se é que podem existir, pois parece que não.

Houvesse uma sincronia perfeita entre o grande livro e o grande leitor, e só chegaríamos a leituras previsíveis, a releituras, e com isso afundaríamos na repetição. Ficaria de fora, assim, aquilo que a leitura de um grande livro guarda de mais fundamental: o susto. Tanto na leitura, como na escrita, existem muitos elementos fora de controle. O despreparo, a insuficiência, o vazio não são obstáculos, ao contrário, são condições fundamentais para a aventura da leitura. Não só para a leitura, mas para a escrita. São peças chaves na construção da literatura.

Os escritores conhecem isso muito bem. No ato da escrita, fatores incertos, invisíveis, não detectáveis, dominam a frente da cena.

Não existe também o escritor preparado para escrever – e justamente por isso que não existem escolas, ou universidades para a formação de escritores. Não há “ciência da literatura” e, por isso, já no século 19, Edgar Allan Poe, no conhecido soneto À ciência, escreveu: “Ciência! Do velho Tempo és filha predileta!/ Tudo alteras, com o olhar que tudo inquire e invade!/ Por que rasgas assim o coração do poeta,/ abutre, que asas tens de triste Realidade?” Nada contra a ciência, é claro; mas que ela não ocupe, não se aposse, de um lugar que não é o seu.

Adélia Prado em sua cozinha católica de Divinópolis. Nelson Rodrigues, em meio à zoeira da redação de O Globo, concentrado em sua dramaturgia. Clarice atônita, a máquina de escrever no colo, escrevendo enquanto vigia as crianças. Franz Kafka abatido em sua mesa de burocrata no ministério de Seguros Gerais, em Praga. Pessoa, metido em uma capa preta, um corvo no balcão de um café do Chiado. Hemingway em seu barco navegando, cheio de bravatas, pela costa de Havana. Ricardo Piglia em um intervalo de aula nos Estados Unidos, ou em um seminário em La Plata. João Gilberto Noll, em pleno inverno, solitário, caminhando por uma praia deserta do norte do Rio Grande. Virginia Woolf, apavorada, ouvindo vozes em seu quarto. João Cabral, de paletó e gravata, despachando em um consulado na África. Qual deles está na situação ideal para escrever?

Todos estão, e nenhum está, já que a literatura é, antes de tudo, o universo do particular. E é também o lugar das experiências incompletas, das situações deficitárias, dos grandes transtornos, das palavras que não dão conta do real mas que, ainda assim, ou por isso, se tornam preciosas. É uma tolice julgar que o ideal para um escritor seria trabalhar das oito ao meio-dia, ou ler as obras completas dos grandes autores, ou se preparar numa especialização antes de enfrentar a página em branco. Há algo de íntimo e intransferível que, por fim, é o que sustenta a literatura. Algo que escapa aos dois lados do jogo literário, escapa ao leitor e escapa ao escritor. “Se a obra de arte proviesse da intenção de fazê-la, podia ser produto da vontade”, escreveu Fernando Pessoa. “Como não provém, só pode ser, essencialmente, produto do instinto.”

Há toda uma parte fluida e disforme que, para além das estratégias narrativas ou poéticas, muito além da sofisticação técnica e da influência das tradições literárias, comanda o ato de escrever. Muitos, sem levar isso em conta, tomam a literatura como uma experiência elevada e especializada, um ofício para escolhidos, ou bem adestrados. Voltando a Pessoa. Depois de dizer que a arte média eleva, enquanto a arte superior liberta, ele faz a distinção: “Elevar e libertar não são a mesma coisa. (…) A libertação é uma elevação para dentro, como se crescêssemos em vez de nos alçarmos”. Está marcada aí a diferença que delimita o literário. A literatura não é só o que se escreve, é um mergulho interior.

 

Trecho do ensaio A literatura na poltrona, publicado em 2006 no jornal Rascunho.

 

 

Um conto de Clarice Lispector

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PRAÇA MAUÁ

 

 

O cabaré na Praça Mauá se chamava “Erótica”. E o nome de guerra de Luísa era Carla.
Carla era dançarina no “Erótica”. Era casada com Joaquim que se matava de trabalhar como carpinteiro. E Carla “trabalhava” de dois modos: dançando meio nua e enganando o marido.
Carla era linda. Tinha dentes miúdos e cintura fininha. Era toda frágil. Quase não tinha seios mas tinha quadris bem torneados. Levava uma hora para se maquilar: depois parecia uma boneca de louça. Tinha trinta anos mas parecia muito menos.
Não tinha filhos. Joaquim e ela não se ligavam. Ele trabalhava até dez horas da noite. Ela começava a trabalhar exatamente às dez. Dormia o dia inteiro.
Carla era uma Luísa preguiçosa. Chegava de noite, na hora de se apresentar em público, começava a bocejar, tinha vontade de estar de camisola em sua cama. Era também por timidez. Por incrível que parecesse, Carla era uma Luísa tímida. Desnudava-se, sim, mas os primeiros momentos de dança e requebro eram de vergonha. Só “esquentava” minutos depois. Então se desdobrava, requebrava-se, dava tudo de si mesma. No samba é que era boa. Mas um “blue” bem romântico também a atiçava.
Era chamada a beber com os fregueses. Recebia comissão pela garrafa de bebida. Escolhia a mais cara. E fingia beber: não era de álcool. Fazia era o freguês se embebedar e gastar. Era tedioso conversar com eles. Eles a acariciavam, passavam a mão pelos seus mínimos seios. E ela de biquíni cintilante. Linda.
De vez em quando dormia com um freguês. Pegava o dinheiro, guardava-o bem guardadinho no sutiã e no dia seguinte ia comprar roupas. Tinha roupas que não acabavam mais. Comprava blue-jeans. E colares. Uma multidão de colares. E pulseiras, anéis.
Às vezes, só para variar, dançava de blue-jeans e sem sutiã, os seios se balançando entre os colares faiscantes. Usava uma franjinha e pintava junto dos lábios delicados um sinal de beleza feito com lápis preto. Era uma graça. Usava longos brincos pendentes, às vezes de pérolas, às vezes de falso ouro.
Nos seus conhecimentos de infelicidade socorria-se de Celsinho, um homem que não era homem. Entendiam-se bem. Ela lhe contava suas amarguras, queixava-se de Joaquim, queixava-se da inflação. Celsinho, um travesti de sucesso, ouvia tudo e aconselhava. Não eram rivais. Cada um tinha o seu parceiro.
Celsinho era filho de família nobre. Abandonara tudo para seguir sua vocação. Não dançava. Mas usava batom e cílios postiços. Os marinheiros da Praça Mauá adoravam-no. E ele se fazia de rogado. Só cedia em última instância. E recebia em dólares. Investia o dinheiro trocado no câmbio negro no Banco Halles. Tinha muito medo de envelhecer e ficar ao desamparo. E mesmo porque travesti velho era uma tristeza. Para ter força tomava diariamente dois envelopes de proteína em pó. Tinha quadris largos e, de tanto tomar hormônio, adquirira um fac-símile de seios. O nome de guerra de Celsinho era Moleirão.
Moleirão e Carla davam um bom dinheiro ao dono do “Erótica”. O ambiente enfumaçado e com cheiro de álcool. E a pista de dança. Era duro ser tirado para dançar por marinheiro bêbedo. Mas que fazer. Cada um tem o seu “métier”.
Celsinho tinha adotado uma meninazinha de quatro anos. Era-lhe uma verdadeira mãe. Dormia pouco para cuidar da menina. A esta não faltava nada: tinha tudo do bom e do melhor. E uma babá portuguesa. Aos domingos Celsinho levava Claretinha ao Jardim Zoológico, na Quinta da Boa Vista. E ambos comiam pipocas. E davam comidas aos macacos. Claretinha tinha medo dos elefantes. Perguntava:
– Por que é que eles têm o nariz tão grande?
Celsinho então contava com uma história fantástica onde entravam fadas más e fadas boas. Ou então levava-a ao circo. E chupavam balas barulhentas, os dois. Celsinho queria para Claretinha um futuro brilhante: casamento com homem de fortuna, filhos, joias.
Carla tinha um gato siamês que a olhava com olhos azuis e duros. Mas Carla mal tinha tempo de cuidar do bicho: ora estava dormindo, ora dançando, ora fazendo compras. O gato chamava-se Leléu. E tomava leite com sua linguinha vermelha e fina.
Joaquim mal via Luísa. Recusava-se a chamá-la de Carla. Joaquim era gordo e baixo, descendente de italianos. Quem lhe tinha dado o nome de Joaquim fora uma vizinha portuguesa. Chamava-se Joaquim Fioriti. Fioriti? De flor não tinha nada.
A empregada de Joaquim e Luísa era uma negra espevitada que roubava quanto podia. Luísa mal comia, para manter a forma. Joaquim ensopava-se de minestroni. A empregada sabia de tudo mas mantinha o bico calado. Era encarregada de limpar as joias de Carla com Brasso e Silvo. Quando Joaquim estava dormindo e Carla trabalhando, essa empregada, por nome de Silvinha, usava as joias da patroa. E tinha uma cor preta meio cinzenta.
Foi assim que aconteceu o que aconteceu.
Carla estava fazendo confidências a Moleirão, quando foi chamada para dançar por um homem alto e de ombros largos. Celsinho cobiçava-o. E roeu-se de inveja. Era vingativo.
Quando a dança acabou e Carla voltou-se a sentar junto de Moleirão, este mal se continha de raiva. E Carla inocente. Não tinha culpa de ser atraente. E o homem grandalhão bem que lhe agradara. Disse para Celsinho:
– Com este eu ia para cama sem cobrar nada.
Celsinho calado. Eram quase três horas da madrugada. O “Erótica” estava cheio de homens e mulheres. Muita mãe de família ia para lá se divertir e ganhar um dinheirinho.
Então Carla disse:
– É tão bom dançar com um homem de verdade.
Celsinho pulou:
– Mas você não é mulher de verdade!
– Eu? como é que não sou? espantou-se a moça que nesta noite estava vestida de preto, um vestido longo e de mangas compridas, parecia uma freira. Fazia isso de propósito para excitar os homens que queriam mulher pura.
– Você, vociferou Celsinho, não é mulher coisa nenhuma! Nem ao menos sabe estalar um ovo! E eu sei! eu sei! eu sei!
Carla virou Luísa. Branca, perplexa. Tinha sido atingida na sua feminilidade mais íntima. Perplexa, olhando para Celsinho que estava com cara de megera.
Carla não disse uma palavra. Ergueu-se, esmagou o cigarro no cinzeiro e, sem explicar a ninguém, largando a festa no seu auge, foi embora.
Ficou de pé, de preto, na Praça Mauá, às três da madrugada. Como a mais vagabunda das prostitutas. Solitária. Sem remédio. Era verdade: não sabia fritar um ovo. E Celsinho era mais mulher do que ela.
A praça estava às escuras. E Luísa respirou profundamente. Olhava os postes. A praça vazia.
E no céu as estrelas.

 

 

Em A via crucis do corpo (1974) livro do qual faz parte este conto, Clarice em sua abertura escreve: Uma pessoa leu meus contos e disse que aquilo não era literatura, era lixo. Concordo. Mas há hora para tudo. Há também a hora do lixo. Ao que tudo indica, A via crucis do corpo foi um livro escrito sob encomenda, a pedido do editor Álvaro Pacheco. Uma contradição – mais uma – na vida de Clarice, que dizia que detestava escrever sob encomenda, gostava de ter liberdade em sua criação. Para um leitor com um certo conhecimento literário, percebe-se que Praça Mauá é um conto cheio de defeitos e arestas. Mas há hora para tudo. E aqui no passeipostei, o lado B de Clarice Lispector.

 

 

Written by passeipostei

30/01/2012 at 17:57

Engasguei e não decifrei

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Recentemente li mais um texto de apresentação de um livro novo. Deve ter sido um tanto constrangedor para a autora, que teve rapidamente seu livrinho transformado em pedestal para o crítico. Porque ele, depois de tantos malabarismos e citações empoadas, comparou a quase desconhecida poeta a Charles Baudelaire. Se ela tiver um pouco de autocrítica, nunca mais pedirá para ser decifrada.

É muito curiosa a crítica literária que se faz na imprensa escrita, atualmente. Algumas vezes, ao contrário do que se poderia supor, os críticos truncam suas análises, fazendo do texto uma bula para iniciados – e não uma matéria dirigida ao leitor comum, que folheia seu jornal ou revista à procura de informações mais acessíveis.

A necessidade de divulgar uma interpretação literária menos hermética e mais clara e simples é tão antiga quanto a chegada da crítica literária à imprensa, século 19, na Europa. Isto foi em torno de 1850-1860, com os primeiros artigos assinados por Sainte-Beuve. Depois, já no final do século, Anatole France – junto com Jules Lemaître e Remy de Gourmont – se rebelou contra as detalhadas análises científicas de Sainte-Beuve, apregoando uma crítica mais sensível, onde a análise da obra fosse gerada pela emoção.

No Brasil, ainda existem alguns críticos que não conseguem se desvencilhar de jargões acadêmicos, quando escrevem para jornais e revistas. Poucos conseguem uma leveza de estilo como a de Affonso Romano de Sant’Anna ou Benedito Nunes.

E os prefácios? Existe um tipo peculiar de prefácio, já citado no início deste artigo, que faz com que o autor do livro acabe sufocado pela avalanche de nomes, de inúmeras citações, comparações esdrúxulas. É como se o crítico ou intelectual quisesse provar ao público que é culto (ou gostaria de sê-lo) e que sabe escrever complicado. Para o autor, o que resta é aceitar a faca de dois gumes dos elogios fáceis.

Mas o perigo desse tipo de crítica não termina aí. Ela sai do particular para o geral, quando as elites ou grupos incentivam determinados modismos e as pretensas “descobertas literárias” tornam-se verdades absolutas. Em vez de difusora e realmente descobridora de talentos, a elite de críticos é capaz de cometer grandes erros, marcando e ludibriando toda uma geração de leitores. Até que um dia vença o bom-senso.

Um desses equívocos aconteceu com Virginia Woolf, que foi uma crítica atuante durante a existência da sua editora

Proust foi vítima da crítica de André Gide

Hogarth Press, em Londres. Ela adorava implicar com James Joyce, chegou até mesmo a classificar o seu livro Ulisses de “memorável catástrofe”. Como homem, Virginia considerava Joyce repugnante e egocêntrico. E o que dizer de Marcel Proust? Coitado, foi o próprio André Gide a vetar a publicação de Em busca do tempo perdido. Gide já era escritor e crítico conhecido quando Proust o procurou para publicar sua obra monumental através da Nouvelle Revue Française, onde Gide era diretor. Se Proust tivesse sucumbido à crítica de Gide, talvez os originais de À La recherche du temps perdu teriam ido para o fogo da lareira, lá no seu quarto forrado de cortiça.

Aqui no Brasil também tivemos alguns equívocos cometidos pela crítica. Uma das vítimas foi Lima Barreto. Consideravam-no um escritor esquisito. Esse preconceito contra Lima durou muito tempo, sendo ele praticamente (re)descoberto pela crítica meio século depois da sua morte.

Na década de 1930, uma polêmica dividiu Tristão de Ataíde e Agripino Grieco, no Rio de Janeiro. Tristão acolheu com entusiasmo o surgimento de José Américo de Almeida, autor de A bagaceira. Grieco saudou o escritor paraibano com um artigo chamado Grande romancista ou simples bagaceira? Literalmente um escracho. Pois errou. A bagaceira marcou o início da fase regionalista do romance brasileiro, abrindo caminho para nomes como Graciliano Ramos, José Lins do Rego e Rachel de Queiroz.

Outro equívoco foi cometido por Álvaro Lins, quando Clarice Lispector publicou em 1944 seu primeiro romance, Perto do coração selvagem. Além de se recusar a opinar sobre o original que lhe fora entregue – mandando Clarice procurar Otto Maria Carpeaux – depois que o livro foi publicado Álvaro achou o romance “inacabado”, mostrando-se sarcástico à linguagem intimista de Clarice, rotulando o livro de “literatura feminina” e “narcisista”.

…e Clarice foi vítima de Álvaro Lins

Como informação é poder, torna-se muito delicado o exercício da crítica literária. Principalmente porque, na maioria dos países, a elite intelectual está cada vez mais dividida em compartimentos. Quem sabe se num futuro próximo o crítico literário se tornará um ágil lobista – como já acontece, aliás, nos corredores e seletos grupos que dão acesso aos grandes prêmios de cultura, como o Goncourt, o Cervantes, o Nobel. Quem sabe os críticos irão trabalhar para os segmentos que lhes parecerem mais simpáticos às suas ideologias e conhecimentos. E o que diria Aldous Huxley desse “admirável” mundo novo?
 

 

Raimundo de Moraes

 

 
 

 
Artigo publicado em novembro de 1995, no Jornal do Commercio, Recife.  Foi publicado com o seguinte título (inventado pelo editor): Para a crítica decifrar é às vezes devorar. Aqui, publicado com o seu título original.

 

 

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