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literatura ou quase

Um conto de Santos Fernando

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Fogo no coração

 

 

 

O fumo, aristocraticamente, azul, mas falso como certos sangues, deu lugar a grossos rolos de partículas em suspensão, uma trave caiu, o lustre desfez-se e as línguas de fogo, que são as mais viperinas, e as gengivas de lume, rubras e descarnadas, tragavam os móveis e as tapeçarias.

— Quem é este belo jovem com capacete de oiro? — perguntou a velha senhora, reclinada no sofá.

Sacudindo algumas faúlhas da libré, o mordomo esclareceu:

— Este belo jovem com capacete de oiro é um bombeiro, “milady”.

— Pois devia ter chegado mais cedo — suspirou a velha senhora.

— Quinze minutos antes do palacete começar a arder — completou o mordomo.

— Trinta anos mais cedo, antes do fim da idade de amar — retificou a velha senhora, com um sorriso repleto de implicações.

— Não é habito chegarmos antes dos incêndios — refletiu o bombeiro.

— Preconceitos, horas de serviço e burocracias — resmungou o mordomo.

— Só apareceremos — insistiu o bombeiro — quando nos chamam. Há tipos que podem chegar em qualquer altura porque vendem em todas as épocas. O bombeiro só vem quando tocam a sineta.

O mordomo deu algumas palmadas na orla do reposteiro lambido pelas chamas. E a velha senhora protestou:

— O bombeiro devia vir mais vezes. Como o leiteiro e o vendedor de detergentes.

— Os bombeiros, minha senhora, não podem andar por aí com uma malinha e uma mangueira a correr de casa em casa — manifestou o bombeiro, delicadamente. E noutro tom: — Estou a ver os voluntários a oferecer fogos a preços módicos. Arda agora e pague depois. Incêndios por catálogo, como se faz com as urnas e as flores dos mortos.

A velha senhora teve um pequeno gesto de contrariedade.

— Primeiro, venderiam o incêndio; depois o processo de o extinguirem. Tal como uma farmácia ligada a uma agência funerária.

— Poderiam telefonar de vez em quando — intrometeu-se o mordomo — a perguntar se há fogo. Que há muitos que não são por encomenda. Não é verdade, “milady”?

— Podiam telefonar a perguntar se há fogo, se já houve ou se está para haver — completou a velha senhora.

O bombeiro lança uma olhadela rápida às chamas que invadem o salão. Os tetos crepitam. Pensa: “eis um fogo simples mas bastante espetacular”. E diz:

— O sótão já lá vai.

— Por que motivo — inquiriu a velha senhora — os incêndios começam sempre por cima?
O bombeiro consulta um questionário com capa de amianto, e articula:

— Para baixo todos os santos ajudam. Deve ser por isso. Mas também há eventualidades em que os incêndios principiam pelos pisos inferiores ou pelos do centro.

— Caprichos! — exclamou a velha senhora — Cá no palacete é a primeira vez que há uma fumarada destas. Só têm este gênero de fumo?

— O fumo na é deles, “milady” — explica o mordomo, dando grandes palmadas nas costas do bombeiro, que estavam a arder.

— Nós não fornecemos fumo. O próprio fogo em si é sempre fornecido pelos clientes — garante o bombeiro, que gosta de pôr as coisas no devido pé.

— Seja como for — insistiu a velha senhora — é um fumo horrível. Mal vejo o seu capacete de oiro. Traz sempre esse capacete de oiro aos incêndios?

O bombeiro nega com a cabeça.

— Só o trago aos incêndios das casas ricas. Às outras, vamos em cabelo.

— Nessa ordem de ideias — a velha senhora esmiuçava tudo — vocês devem ter trajos adequados para cada gênero de fogo.

E o bombeiro, de piquete à réplica muito rápida:

— Já temos ido de fraque a incêndios de gala. E salvo muito boa dama, de chapéu alto e asas de grilo.
A velha senhora soltou um suspiro demasiado longo para o seu velho fôlego. Vendo as chamas muito próximas do sofá, o bombeiro pede:

— Um copo de água, por favor.

— Fresca ou natural? — interessou—se o mordomo.

— Tanto faz — replicou o bombeiro.

O mordomo saiu pela única porta ainda não atingida e, ao regressar com o copo de água, informou a velha senhora de que o cozinheiro chinês estava devidamente assado ao pé do fogão.

Indiferente, a velha senhora, que se interessava por outros fatos mais saborosos, inquiriu:

— E você veio sozinho a este meu fogo?

E o bombeiro:

— Tenho os camaradas, lá em baixo, com o material.

— Ah, traz material — entusiasmou-se o mordomo.

— É mais seguro — explicou o bombeiro —. Uma escada, por exemplo, faz sempre arranjo.

— Não seria mais útil elevador? — pergunta a velha senhora.

— Talvez — condescende o bombeiro. — O mais prático, porém, é pegar nas pessoas e atira-las pela janela.

— E têm uma rede na rua? — interroga o mordomo.

— Não vale a pena. Nunca se acerta na rede. O chão é suficientemente rijo para suportar o peso de qualquer corpo — justifica o bombeiro.

E a velha senhora afirma:

— Os vossos métodos são muito perfeitos. Vê-se que a corporação é modelar.

— Chegamos a apagar fogos com chá — diz o bombeiro.

— Com chá? — admira-se o mordomo.

— Sim, em residências da alta — explica o bombeiro.

Era a vez da velha senhora interrogar.

— E aqui, como vão fazer?

— Aqui, é deixar arder.

Uma cabeça assomou à janela.

— É o meu camarada — apresentou o bombeiro.

— Que entre. Tomem uma taça de champanhe — oferece a velha senhora.

— Há uma chamada telefônica para ti — anuncia o camarada.

Enquanto o bombeiro se preparava para partir, as chamas atingiram a parte mais rica do salão. As lâmpadas dos lustres davam pequenos estalidos, os móveis crepitavam, as telas do século dezoito ardiam e as tintas iam escorrendo pelas paredes. Um relógio deu as suas últimas horas mortais. O cuco saiu pela derradeira vez e ficou frito.

— Como cai o fogo? — interessou-se o camarada.

— Vai indo, ripostou o bombeiro.

— Que calor! — soprou a velha senhora.

— Em junho é sempre assim, “milady” — considerou o mordomo.

O camarada, que tinha alma de antiquário, ao ver uma cantoneira cheia de retorcidos retorcer-se ainda mais repetia:

— Que lástima… Que lástima…

— Que pena… — murmurou então a velha senhora, ao ouvido chamuscado do belo jovem com capacete de oiro. — Que pena você não ter chegado trinta anos atrás, quando o meu peito se inflamava deveras e o meu coração ainda podia arder…

 

 

 

 

 

Primeiro conto do escritor português Santos Fernando (1927-1975) publicado no Brasil, na década de 1970 no jornal Pasquim. Seus textos, repletos de non sense e situações absurdas, também se transformaram em peças de teatro e programas de rádio veiculados na capital portuguesa.

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Written by passeipostei

25/05/2011 às 22:24

Publicado em Contos

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